Palavras para tempos de crises...

Uma aproximação ao livro de Deuteronômio

Espiritualidade, justiça e solidariedade

 

O lugar escolhido por Yahvé...

 

Como tínhamos dito, começamos a transitar por textos do chamado Código Deuteronômico (Dt 12-26), centro e coração teológico de nosso livro. E queremos refletir agora sobre o texto que abre o Código: Dt 12,1-28. E, neste texto, a expressão “o lugar que o Senhor escolher” repete-se ao longo do conjunto (v.5.11.14.18.21). Mas destacamos, também, que o Código começa e termina com instruções cultuais enfatizando “o lugar escolhido por Yahvé para ali fazer habitar seu nome” (Dt 12,5.11 e 26,2).

 

Já a pesquisa bíblica enfatizou que a chamada “lei do altar único” ou de um “único santuário” teve um papel fundamental e tremendas conseqüências na reorganização da sociedade judaíta de seu tempo, assim como na história cúltica de Israel. Porém,  dividem-se as opiniões, por um lado, com relação aos propósitos desta ordenança desconhecida em Israel, acostumado, desde suas origens, ao culto familiar e à proliferação de santuários (Dan, Bethel, Siquem, Silo) e, por outro lado, com relação à identificação do lugar “escolhido por Yahvé”.

 

Para alguns pesquisadores a “lei do altar único” visava assegurar a exclusiva adoração a Yahvé, atendendo a interesses diversos: os interesses imperialistas da monarquia (o rei Josias), que precisava garantir a unidade nacional e aumentar a arrecadação, e os interesses do sacerdócio de Jerusalém, que seria beneficiado pelo monopólio do sacrifício. Já no que diz respeito “ao lugar escolhido por Yahvé” aponta-se para a cidade de Jerusalém e seu Templo.

 

No entanto, não temos espaço nem é nosso propósito neste estudo entrar nesse debate. Porque mais nos interessa aqui enfatizar bem alguns aspectos do texto, como a relação entre culto e fidelidade a Deus, por um lado, com justiça, solidariedade e unidade da comunidade, por outro lado. Porém, faço alguns comentários e posicionamentos hermenêuticos necessários.

 

Em primeiro lugar, já falamos do Código Deuteronômico como produto de um movimento social nascido no reino do norte antes da queda de Samaria (722 a.C) e, portanto, anterior à reforma de Josias (640 a.C.). Em segundo lugar, o Código não identifica “o lugar escolhido” com Jerusalém nem proíbe a atividade cúltica fora desse lugar (cf. Dt 12,18). Em terceiro lugar, pensar em Jerusalém como “o lugar escolhido” tornaria muito difícil entender a crítica dos profetas do século VIII a.C. à cidade de Jerusalém e ao Templo. Finalmente, se, como afirmamos, o movimento deuteronômico foi uma coalizão de diferentes grupos sociais, com base nas famílias camponesas do interior, é muito difícil que o movimento vinculasse “o lugar escolhido” com Jerusalém, já que Jerusalém para eles representava um centro de poder político e religioso explorador, extorsivo e ilegítimo.

 

Portanto, assumimos, com alguns pesquisadores, que a “tese do altar único” certamente ocupa um lugar central como um projeto de transformação das estruturas e da vida cotidiana do povo de Judá, mas que, em sua totalidade, e do ponto de vista cúltico-religioso, visava à unificação da adoração a Yahvé e da espiritualidade judaíta; do político, visava à descentralização do poder monárquico e sacerdotal; do socioeconômico, visava à justiça social e à libertação do peso da taxação estatal e cúltica; do cultural, visava à libertação do imperialismo assírio.

 

Comereis... e vos alegrareis em tudo...

 

A expressão “o lugar que Deus escolher” é o elemento que dá coerência a todo o conjunto de Dt 12,1-28, e toda atividade, seja cúltica ou não, relaciona-se com esse fato. E, se bem é certo que o Código enfatiza a fidelidade absoluta a Yahvé, “no lugar que ele escolher”, desde o princípio se estabelece uma relação estreita entre fidelidade e justiça social. Ou seja, dá-se mais ênfase à demanda de incluir o pobre, os escravos e as escravas, assim como os necessitados na celebração a Yahvé, que ao ensino de que Yahvé é o único Deus de Israel (cf. Dt  12,12.18; 26,2.10.13.14). 

 

A atividade que mais se destaca é a de comer. O termo “comer” aparece 18 vezes em todo o texto. Vincula-se adoração e celebração com a sobrevivência do povo. Assim, se come como parte da celebração litúrgica (Dt 12,7. 18); come-se graças à dádiva e à misericórdia de Deus para com todo o povo (Dt 7.15.20-21); come-se mostrando solidariedade para com os mais fracos da sociedade (Dt 12.12.18.19).

 

Outro termo chave é “todo”. Aparece 14 vezes em Dt 12,1-28 em diferentes contextos. E o fato de ser “todo” o povo convocado para comer juntos para celebrar a Yahvé faz com que o povo seja, de fato, convocado a relacionar toda a sua vida com Deus e com o próximo em uma relação indissolúvel. Então, toda atividade, seja religiosa ou não, se converte em sagrada e solidária. O banquete alegre, “...e vos alegrareis em tudo...”, celebrado em nome de Deus deve ser uma atividade festiva que afirme a igualdade e a justiça. Porque a celebração litúrgica é e deve ser um espaço libertador onde “todos” sejam iguais ante Deus (Dt 12,12). Somente uma vida de total entrega a Deus e à sua justiça vai garantir o bem-estar para todo o povo de Deus (Dt 12,25.28).

 

Resumindo, em minha opinião, os deuteronomistas, em lugar de enfatizar o aspecto litúrgico externo, insistem mais nas obrigações éticas e morais que se derivam da relação e da fidelidade dos israelitas com Deus. E, eis aqui a novidade desconhecida até esse momento em Israel! A verdadeira adoração acontece na cotidianidade, em que todos e todas são convidados a comer juntos. A adoração é um espaço libertador onde “todos”, toda a família (filhos e filhas), os escravos e as escravas, assim como os levitas (ou seja, os mais fracos), são iguais perante Deus (Dt 12,12).

 

Fazer essas palavras atuais para nós hoje poderia significar, entre outras coisas, reconhecer que uma adoração será verdadeira só quando promove uma comunidade igualitária, quando desarticula injustiças e discriminações de qualquer tipo e quando chega a ser um movimento de benção para todos os seres humanos.

 

E Javé te abençoará…

 

Dt 15,1-18 forma parte de um conjunto cúltico-litúrgico (Dt 14,22-16,17). Neste conjunto se estabelece uma relação muito estreita entre levar oferenda e celebrar a festa, ou seja, adorar. O conjunto estabelece relações de solidariedade, partilha de propriedades, libertação de escravos e escravas e alimentos para os mais fracos da sociedade: os levitas (Dt 14,29), os empobrecidos e necessitados (Dt 15,4.7.9.11), os escravos e as escravas (Dt 15,12-15), o migrante/peregrino e o órfão e a viúva (Dt 16,11.14).

 

O termo barak (lit. abençoar) aparece repetidas vezes na frase “…Javé te abençoará…” (Dt 14,29; 15,10.18; 16,15). Relaciona-se, assim, o fato de receber bênção de Javé com cumprir as leis que beneficiam os mais fracos. Afirma-se, desta maneira, que não pode haver uma verdadeira adoração, sem justiça social, pensamento que está muito na linha da pregação dos profetas Isaías e Miquéias (cf. Is 1,10-18; Mi 3,4).

 

Cada sete anos...

 

A Bíblia não tem um relato da instituição do sábado e muitas hipóteses têm sido elaboradas para determinar sua origem. Contudo, a única certeza é que este tem uma origem muito antiga em Israel e que, a partir do exílio babilônico, chegou a ser uma marca de identidade que identificou o povo de Israel. Esta instituição, cujos regulamentos se encontram dispersos e com diferentes ênfases (cf. Ex 20,22-23,33; 21,2-6; Lv 25,2-7; Dt 15,1-11), e tendo como transfundo diferentes contextos, é um grande projeto e uma magnífica utopia de libertação e solidariedade social.

 

A instituição do ano sabático, tal e como se apresenta em Dt 15,1-18, pode dividir-se em três momentos: Dt, 15,1-6; 7-11 e 12-18. Cada um desses momentos declara, sob ângulos diferentes, a necessidade da solidariedade e o cuidado para com os pobres a partir de novas relações socioeconômicas: o cancelamento das dívidas (Dt 15,1-6), os empréstimos aos pobres (Dt 15,7-11) e os regulamentos para a libertação dos escravos hebreus, sejam esses  homens ou  mulheres (Dt 15,12-18).

                                                    

Para que entre ti não haja pobres...                                                                                                                              

 

O ano de remissão das dívidas que encontramos em Dt 15,1-6 não se encontra na legislação israelita anterior. No Código da Aliança, se fala do descanso da terra (Ex 23,1-11), o que, em realidade, era um paliativo para que os pobres e os animais pudessem comer do que sobrava. Porém, esta legislação não perturbava o lucro que poderiam obter os proprietários, nem resolvia os conflitos, nem interferia nas relações socioeconômicas.

 

Termos como shemitta (lit.neste contexto/abrir mão/de empréstimos/de dívidas), mashsheh (lit. empréstimo) e ba‘al (lit.neste contexto/senhor, proprietário/ e também credor) não deixam dúvidas sobre o enfoque econômico do texto.

 

Vemos assim que o ano de remissão das dívidas é uma proposta radical, indo muito além de Ex 23,1-11. A proposta não é simplesmente um cancelamento das dívidas, mas interfere nos conflitos que levam ao endividamento, à dependência e, conseqüentemente, à pobreza e à escravidão. Está propondo que “entre ti não haja pobres”, ou seja, uma sociedade mais igualitária onde todas as pessoas possam ter o necessário para viver. Uma sociedade onde a irmandade, a justiça e a solidariedade social façam realidade o verdadeiro culto a Javé.

 

Não endureças o teu coração, nem feches a tua mão a teu irmão pobre

 

Em Dt 15,7-11, seção em destaque e situada no centro de nosso texto, temos um grande apelo para que sejam feitas realidade a solidariedade e a justiça para com o irmão empobrecido. Dessa maneira, a criação de uma comunidade de irmãos e de irmãs é uma temática central, a qual se reforça com a frase “não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre” (Dt 15,7b). Assim, destaca-se o termo ’ah (lit, irmão), que aparece 25 vezes em Deuteronômio, particularmente no Código Deuteronômico (Dt 12-26), e das 25 vezes que aparece em Deuteronômio podemos encontrá-lo 5 vezes em nosso texto (cf. Dt 15,2.3.7.9.11).

 

Lembra-te de que foste servo na terra do Egito

 

Certamente a libertação de escravos e escravas (Dt 15,12-18) está estreitamente relacionada com a lei sobre o cancelamento das dívidas que abre nosso texto (Dt 15,1-6). Aqui a frase irmão hebreu” aplica-se tanto a homem como a mulher. Desta maneira as mulheres são incluídas especificamente na libertação. E isso significa um avanço com relação ao status da mulher em uma sociedade patriarcal, ainda que possa ter ficado simplesmente como um projeto ou uma utopia libertária.

 

No entanto, não era suficiente libertar os escravos e as escravas, mas era preciso garantir-lhes os meios necessários para começar sua nova vida, para não ter que cair novamente na escravidão (Dt 15,13-14).

 

Enfim, tenha sido ou não aplicado  a nível social, o projeto deuteronomista de libertação de escravos e escravas ficou como um profundo sonho libertário. E, pelo seu caráter inclusivo e abrangente, pela sua garantia de uma vida digna para os libertados, e tendo como transfundo a memória libertadora do êxodo (Dt 15,15), lembrará sempre que esse Israel, que tinha nascido na liberdade, na igualdade e na justiça, devia promover sempre esses princípios para ser abençoado por Deus. Já no período do Novo testamento, o movimento de Jesus saberá estabelecer a sintonia com esse projeto libertador.    

 

Hoje se cumpriu

 

Com Jesus as leis do ano sabático são reatualizadas. No Pai Nosso é proclamado o perdão das dívidas (Mt 6,12); na sinagoga de Nazaré é retomado o projeto libertador do ano sabático (Lc 4,18-19) como um projeto que deve ser uma realidade sempre presente. E este último se reforça quando, no texto, se afirma “...hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4,18-19).

 

Então, e resumindo, pela forte carga utópica as imagens, a mensagem e o clamor do ano sabático de que “...entre ti não haja pobres..” ultrapassam seu próprio tempo e contexto e nos desafiam a viver HOJE proclamando boas notícias para todas as pessoas excluídas, oprimidas, discriminadas e marginalizadas,.porque, somente vivendo e, sobretudo, agindo assim, “Deus nos abençoará”

 

 

Rev. Pedro Triana