ABERTURA DOS ARQUIVOS DO VATICANO E PROCEDIMENTO DO ARCIC

 

INTRODUÇÃO

 

William Frnaklin

 

 

            Apostolica Curae estabeleceu a base doutrinária da Igreja Católica Romana para rejeitar o ministério anglicano nestes 100 anos. Esta é, também, a base da prática de admissão dos anglicanos à Eucaristia em circunstâncias bem limitadas.

 

            As 11 seções do documento AC apresentam a justificativa teológica da presente política de absoluta rejeição da validade das ordens anglicanas por parte do Vaticano. Essa rejeição baseia-se no argumento de que o Ordinal da Igreja da Inglaterra tem sido defectivo desde o século XVI na “intenção” e na “forma”. A base disso está na ausência

 

·       da referência ao sacrifício na Eucaristia

·       e no Ordinal.

 

Isto é, o Livro de Oração Comum de 1552 introduziu uma nova intenção, um ritual radicalmente novo. “Recebe o Espírito Santo” no Ordinal não transmite a ordem católica do sacerdócio sacrificial para consagrar e oferecer o corpo e sangue de Cristo no sacrifício eucarístico. Assim, a Igreja da Inglaterra afastou-se da tradição católica, segundo Apostolica Curae.

 

            Em suas dezesseis secções o referido documento retoma os argumentos históricos para dar embasamento ao juizo teológico no Apostolica Curae, isto é, que sempre a Santa Sé tratou as Ordens Anglicanas nulas e inválidas e a prática do não-reconhecimento das Ordens Anglicanas remonta ao período dda restauração mariana (1553-1558) e explicitamente expressa nas duas cartas papais:

 

·       Carta de Julio  1554)

·       Paulo IV (1955)

 

            Essas Cartas são interpretadas na Apostolica curae para reordenar absolutamente os que foram ordenados por meio dos Ordinais Anglicanos de 1550 e 1552 em diante para poderem servir na Igreja Católica Romana.

 

            Surgiram dois novos fatores para a reabertura da questão.

 

            (i) À luz dos documentos principais há indicações de que Leão XIII chegou à decisão através de um processo mais complexo com a opinião fracionada dentro do Vaticano do que se pensava anteriormente.

 

            (ii) Após 100, a questão pode ser examinada sem as limitações do século XIX num novo contexto.

 

Este novo contexto é a reforma litúrgica, principalmente, do Ordinal. A reforma romana do ordinal encurtou a distância entre o Ordinal de duas Igrejas.

 

Faz parte desse novo contexto a descoberta do sentido do sacrifício recuperado biblicamente.

 

Há, também, precedentes da revogação das Bulas, como por exemplo, a Bula de extinção da Sociedade de Jesus por Clemente XIV em 1773 revogada por  Pio VII em 1814.

 

            ANTECEDENTES DA AC

 

            Conforme George H. Tavard sobre os estudos mais recentes a respeito da mente do papa Leão XIII em 1896:

 

·       Papa estava preocupado com a unidade cristã diante da secularização da sociedade. A visão era pre-Vaticano II. Em Praeclara congratualtionis (20/06/1984) lançou o apelo para a reconciliação entre as Igrejas do Oriente e a Igreja de Roma.

 

·       Papa criou em março de 1895 uma comissão para “promover a reconciliação dos dissidentes com a Igreja”.

·        

·       Na Amantissima voluntatis o povo inglês foi muito apreciado e foi, também, exortado a orar o rosário, porém não foi feita nenhuma referência ao clero anglicano.

 

·       Enquanto esta carta estava em preparo, Leão XIII passou a retomar a questão das ordens anglicanas. Sua intenção era atingir uma posição em que houvesse uma ordenação condicional. Porém foi ele muito impressionado com a argumentação negativa das ordens anglicanas a despeito da posição favorável de Duchesne. E isso influiu na ssua decisão.

 

Em síntese é isso que Tavard concluiu.

 

ABERTURA DOS ARQUIVOS DO VATICANO DO PERÍODO DO LEÃO XIII EM 1978

 

            Até então, o público não conheceu os esboços e relatórios da Apostolica Curae.

Pelo menos duas coisas vêm à tona.

 

(1) Pelo menos a metade da Comissão produziu alguns documentos em favor das ordens anglicanas e deu votos favoráveis.

·       Barão von Hugel em Spoglia Rampolla expressou a avaliação positiva das ordens anglicanas.

 

·       Louis Duchesne, professor de história na Universidade de Paris examinou vários documentos no período de Julio III e Reginald Pole e chegou à conclusão de que Paulo III não declarou inválidas as ordens anglicanas na sua carta a Reginald Pole, na Inglaterra, no período da restauração da Igreja Católica Romana sob o reinado da rainha Maria e não houve reordenação até 1570. Essa era conclusão de Duchesne.

 

Não houve, assim, uma declaração categórica e explícita da nulidade das ordens anglicanas no século XVI.

 

(2) Há sinais de anotações negativas feitas à mão por Leão XIII nos relatórios preliminares da Comissão.

           

            A metade da Comissão votou em favor das ordens anglicanas. Então, houve incerteza a respeito da matéria. A despeito disso, Leão XIII optou pela nulidade.

 

            A ARC nos Estados Unidos em 1990 concluiu que, baseado em vasto material então desconhecido, chegou o momento para a reavaliação da matéria.

 

            Por que Leão XIII optou por não-reconhecimento das ordens anglicanas?

 

            Para o Papa a questão da validade não estava nas provas históricas, mas na unidade sacramental da Igreja e do Ministério. Em poucas palavras, era preciso que os anglicanos e católicos romanos estivessem numa só comunidade institucional de fé, que implicaria no acordo substancial da teologia do sacramento e do ministério.

 

            Há indicações de que Leão XIII não pronunciou apenas o “não”. Foi o “não” para dar início a um processo de diálogo.

 

            Desde o fim da II Guerra Mundial houve estudos e reforma em ambas as Igrejas sobre dois pontos em questão: conceito de sacrifício na Eucaristia e Ordinal.

 

·       o trabalho da ARCIC demonstrou que, no que toca  à questão do sacrifício na Eucaristia, houve aproximação das duas tradições via estudos bíblicos e patrísticos.

 

·       No que se refere ao Ordinal de Paulo VI há sinais de proximidade entre duas Igrejas via rito oriental e aproximação com a patrística. A entrega de instrumentos na ordenação não é essencial. A fórmula em contraste com a da Idade Média mostra mudança.

 

O cardeal Willebrands viu nesses fatos acima mencionados “um novo contexto”em que se “ reflete alguma coisa de desenvolvimento teológico em ambas as Comunhões desde Apotolica Curae.”

 

            Por outro lado, em Resposta ao Relatório final de 1991 o Vaticano, embora aprovasse o cerne do Relatório, solicitou o esclarecimento:

 

·       sobre a ligação essencial entre o memorial eucarístico e o sacrifício do Calvário,

·       sobre a natureza propiciatória do sacrifício eucarístico que pode ser aplicada, também, ao falecido,

 

·       sobre a certeza de que Cristo está presente sacramental e substancialmente,

 

·       sobre a adoração do Cristo no sacramento reservado.

           

A questão foi respondida pelos Esclarecimentos sobre Eucaristia e Ministério (Clarifications on Eucharist and Ministry, ARCIC-II)

 

 

O Cardeal Cassidy declarou que “o acordo alcançado sobre a Eucaristia e Ministério pelo ARCIC-I é fortalecido por esses esclarecimentos e parece não requer outro estudo sobre a matéria.”

 

Com isto pode-se dizer que há linha de pensamento, no Vaticano, que deseja situar questão das ordens anglicanas dentro de um novo contexto.

 

            Por outro lado, há uma indicação de que se mantém uma linha de argumentação da Apostolica Curae que consiste nisto: no tempo da Reforma a linha de sucessão apostólica foi decisivamente rompida na Igreja da Inglaterra e as ordenações dai em diante são nulas e inválidas mesmo feitas dentro de um “novo contexto”.

 

           

            Diante dessa linha de pensamento permanece válida a resposta do Arcebispo de Cantuária à decisão de Leão XIII. Se as ordens anglicanas são nulas e inválidas porque a teologia sacramental do Livro de Oração Comum de 1550 e 1552 não é desenvolvido como o de 1662, as ordens católicas romanas são nulas e inválidas do mesmo modo, porque os Ordinais católicos primitivos não contem ou não mencionam especificamente a plena teologia sacramental do Trento.

 

STATUS QUO

            É possível dizer que há um status quo após 100 anos. Por exemplo, em resposta a Hughes que advogou um reestudo da Apostolica Curae num novo contexto, Dr. Clark declara que “o caráter nativo e espírito do Ordinal do Livro Eduardiano (1550-52) não pode ser purificado com a participação dos bispos da Igreja Vetero-Católica. Que o julgamento do caráter original anti-sacerdotal do rito anglicano está ainda em vigência e que se evidencia a diferença essencial entre as Ordens de ambas as Igrejas não só na prática contínua canônica da Igreja Católica romana, mas também pela declaração de João Paulo II.

 

            Sobre a Apostolica Curae o atual Papa disse:

 

sério obstáculo no progresso para a unidade foi, sem dúvida, a decisão feita pela Comunidade da Igreja Anglicana de proceder a ordenação sacerdotal feminina. É uma ação que lança mais sombra sobre as ordenações sacerdotais na comunidade anglicana, e sobre  essa questão Papa Leão XIII já fez o seu na Apostolica Curae.

 

            Temos, assim, incerteza como em 1896. Retornamo-nos a 7 de maio de 1896. De um lado, há crescimento do consenso ecumênico. De outro, há status quo. Dai o problema que Fraklin levanta: sobre a autoridade do magistério da Igreja Católica Romana. A grande Igreja que dá importância principal à tradição doutrinal deve ser capaz de explicar teológica e historicamente os fundamentos de suas ações, ações de seus principais oficiais em manter o não-reconhecimento dos ministros de outras Igrejas.

           

Resumido por

+Sumio Takatsu