IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL

DIOCESE ANGLICANA DE SÃO PAULO

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São Paulo, 29 de agosto de 2003

 

 

Ao Clero e Membros da Diocese Anglicana de São Paulo

 

 

Somos seres limitados e recebemos, pela Graça e pela Ressurreição de Cristo, a vida eterna. Lemos em Ecl. 3:1ss que “debaixo do céu há momento para tudo e tempo certo para cada coisa”. A história é um processo; há valores e conhecimentos que vão se construindo e outros que são superados conforme o tempo passa. O ser humano é capaz de ler na própria vida e em todo cosmo a manifestação da Verdade, que para nós cristãos, coincide com o próprio Deus manifestando-se.

Tenho que confessar que eu não tinha muito conhecimento sobre a homossexualidade mas há em mim o interesse em saber mais profundamente sobre essa questão.

Pensava ser a homossexualidade um fenômeno ‘especial’ e minoritário na sociedade. Não rejeitava os que são de orientação sexual diferente, mas tinha certo preconceito. Hoje sei que não é bem assim.

Este meu pensamento pode ser comum a muitos cristãos.

Mas quando conheci algumas pessoas que foram perseguidas e rejeitadas pela sociedade e pela própria Igreja que anuncia o amor e o acolhimento, e na prática age diferentemente, comecei a questionar-me e decidi aprofundar mais meus estudos .

Reconhecendo minha limitação em relação à ciência  e à  Bíblia, eu tenho que pedir a perdão a Deus e às pessoas que têm  orientação sexual diferente da minha, por ter sido ignorante e inconscientemente rejeitá-las.

Fiz a tradução de um dos estudos bíblicos com uma das muitas interpretações para dizer que a Bíblia nunca condenou a homossexualidade. A homossexualidade não é opção nem doença, mas sim, uma maneira de ser, cientifica e religiosamente justificada com bases sólidas e consistentes. Precisamos estudar e conhecer mais. Contamos nesse trabalho com a preciosa ajuda do Revmo.
Bispo Dom
Sumio Takatsu para a revisão exegética e da seminarista Valéria na redação.

Anexo o trabalho de um teólogo japonês, orando para que seja uma pessoa que oportunamente contribua para o nosso crescimento, com seu conhecimento bíblico e diminua nosso preconceito sobre a homossexualidade.

                     

Vosso bispo,    

 

 

 

+Hiroshi Ito

 

 

HI/vs


Ética sexual do Novo Testamento

Por Katsuhiro Kohara - Professor da Universidade Doshisha, Kyoto, Japão

 

1- Comentário inicial

A Igreja sempre teve suas diretrizes éticas para responder aos problemas levantados no contexto social e cultural. E cada decisão tomada nessa área foi conduzida pelo diálogo
com a Bíblia e a tradição eclesiástica, receberam influências da época em questão. Portanto,uma diretriz moral firme na ética contemporânea  pode ser restaurada fundamentalmente em outros tempos.Exemplo típico hoje é a ética sexual.

Concretamente podemos citar os problemas da igualdade entre o homem e a
mulher, tendência sexual e diversidade de sexo.  Estes problemas são discutidos na sociedade geral, mas, o cristianismo deve suscitá-los e apresentar respostas  à
luz da Bíblia e tradição eclesiástica, não somente seguindo as tendências sociais.  No entanto as respostas devem ter valor e peso social, porque estes problemas não podem ficar limitados ao círculo eclesiástico, e devem sim, atingir a esfera social.  Se estabelecermos uma ética  que tenha valor somente religioso, perdemos o problema fundamental do assunto.
Mas no cristianismo, existe historicamente, uma atitude em seguir as tendências da sociedade, que menospreza ou considera tabus os problemas de origem sexual. Precisamos, portanto, restabelecer a ética sexual cristã.
Podemos encontrar algumas diretrizes sobre o sexo na Bíblia hebraica (Antigo Testamento). Os trechos geralmente citados sobre a homossexualidade  são:

Gênesis19:1-19, Levítico  18:22, 20:13. Mas gostaria de levantar as regras neotestamentárias para essa questão.

2- Homossexualidade


Antes de estudar a possibilidade da ética sexual cristã geral, gostaria de suscitar o problema da homossexualidade que é um tema de grande relevância na sociedade hoje.
Até que ponto, o Novo Testamento pode ser uma orientação concreta sobre a homossexualidade que foi condenada dentro do conceito tradicional  de valor ?
Citemos os trechos do Novo Testamento que foram utilizados para criticar tal prática: 1Cor.6:9-10; 1Tim. 1:9-10; Rm.1:26-27.
A metodologia para condenar a homossexualidade citada nestes trechos bíblicos é evidente. Primeiramente, separam os trechos do seu contexto e utilizam-nos como regras especiais de proibição de ética. Depois, separam estas expressões do contexto cultural da época e as
colocam junto à palavra [homossexualidade] usada hoje como se fossem sinônimas.
Mas será que com esta metodologia podemos alcançar a verdade da Bíblia?

A) 1Cor. 6:9-10

[....Nem depravados (malakoi), nem os efeminados (arsenokoitai) ....irão herdar o Reino de Deus] 

A forma de expressão  que cita os vícios, conhecida como [Catálogo de Vícios] foi  considerada comum nas literaturas greco-romana e também na literatura helenística e judaica (cf. Sb 14:25-26). Também Paulo usou essa Lista em outros lugares (Gl. 5:19-21, 1Cor. 5:10-11, 2Cor. 12:20, Rm.1:29-31, 13:13). Mas, quando o autor a cita, ele não a usa  com critérios de adaptação para o contexto, mas comumente como uma expressão tradicional.
Na Primeira Carta aos Coríntios, há três  [Listas de Vícios] (5:10, 5:11, 6:9-10). Aqui, Paulo pretende atacar os seguintes vícios que ele sabia que estavam acontecendo na
própria igreja.

1) Uma pessoa conviver com a mulher do seu  pai (5:1-5).
2)  Levar o caso para ser julgado pelos pagãos (6:1-8).
3)  União com uma prostituta (6:12-20).

Para criticar os citados vícios, Paulo utiliza cuidadosamente 3 [Listas de Vícios]. A  primeira Lista possui 4 vícios e a segunda Lista possui os vícios da primeira Lista, acrescentando dois outros vícios (a calúnia e a bebedeira). E a terceira Lista possui todos os vícios da primeira e da segunda Lista, acrescentando mais 4 vícios (adultério, depravação, efeminação  e roubo).

Paulo enfatiza os problemas sérios que a Igreja de Corinto possui, utilizando as Listas retóricas. Para Paulo, não é objetivo afixar UM vício . O tema principal de Paulo é a pureza que foi dada por Cristo e a diferença clara contra a vida antiga. Paulo ordena
[purifiquem-se do velho fermento] (5:7) e [vocês se lavaram, foram santificados e reabilitados] (6:11); [vocês não sabem que o seu corpo é templo do Espírito Santo?] (6:19). É para focalizar a diferença entre a impureza antiga e  a pureza atual que deve existir na vida cristã que Paulo cita as [Listas de Vícios].


Considerando o contexto bíblico, gostaria de aprofundar os termos  [MALAKOS]  e  [ARSENOKOITES]. Existem muitas discussões na interpretação do termo [malakos].
Originalmente MALAKOS significa [efeminado] mas  foi utilizado vulgarmente como o “parceiro passivo” (muitas vezes meninos) no ato homossexual. O termo ARSENOKOITES presente no texto grego só está presente na primeira carta aos cristãos de Corinto e não o encontramos em outro lugar na Bíblia.  Portanto, ou Paulo inventou uma nova expressão ou aproveitou a expressão que os judeus helenísticos  criaram. A palavra ARSENOKOITES é composta do termo ARSEN
(homem) e KOITE (cama) e podemos encontra-la em Levítico 18:22 e 20:13 no Antigo Testamento em grego. Paulo utiliza estes termos baseando-se nas Leis Divinas. Portanto, procura entender a palavra ARSENOKOITES com ligação a Malakos.

 

Podemos imaginar algumas figuras ativas que utilizavam meninos (malakos) usando do dinheiro ou do poder  para satisfazer seus desejos. Estes termos representam um estado
específico da questão homossexual e não há relação com o termo homossexualidade que hoje nós usamos.

B) 1Tm  1:9-10
[Ela - a Lei - não é destinada ao justo, mas aos (1) iníquos e rebeldes, (2) ímpios e pecadores, (3) sacrílegos e  profanadores, parricidas e  matricidas, homicidas, (4)
impudicos (pornoi), pederastas (arsenokoitai), mercadores de escravos (andrapostai), (5) mentirosos, para os que juram falso]

A expressão [pederastas] é associada à  relação homossexual, mas podemos esclarecer o sentido verdadeiro do  termo na ligação com os termos anterior e posterior a ela. Neste
trecho bíblico, podemos dividir em 5 grupos a Lista de Vícios.

No grupo (4) podemos entender que impudicos (pornoi), pederastas (arsenokoitai)  e mercadores de escravos (andrapostai) são expressões interligadas.  PORNOI no contexto
bíblico foi interpretado como a pessoa que pratica um ato sexual imoral; mas na literatura grega este termo significa, comumente, o que leva à prostituição  ou o escravo que está
na casa de prostituição. PORNOI nesse sentido deve ser interpretado estreita e originalmente na ligação com ARSENOKOITAI, ou seja, podemos entender que a relação entre MALAKOS e ARSENOKOITAI em 1Cor. 6:9 e  a relação entre PORNOI e ARSENOKOITAI em 1Tim. 1:10 são iguais. Deste modo é possível entender o objetivo dos mercadores de escravos (ANDRAPOSTAI) . Geralmente os seqüestrados  eram vendidos como escravos, mas os meninos e meninas "mais bonitos" eram vendidos para casas de prostituição. Assim, quem traficava os  PORNOI (entendamos parceiros passivos) que eram usados pelos ARSENOKOITAI (entendamos parceiros ativos), eram os ANDRAPOSTAI (mercadores de escravo). A realidade desumana a que estavam submetidas estas três categorias, constitui a crítica da Bíblia. Portanto, para os mercadores (ANDRAPOSTAI) que colocam as premissas de seqüestro e escravização dos
meninos, constitui um ato desumano e pior do que o dos pederastas (ARSENOKOITAI) em  1Cor.6:9 .

C) Romanos 1:26-27

Este trecho é o único no NT que condena o ato sexual entre o mesmo sexo. Mas devemos entender o sentido teológico, o contexto da redação. O objetivo teológico da Carta aos Romanos é a narrar a justiça e a graça divina que foram reveladas pelo acontecimento Jesus Cristo. A carta enfatiza ainda o fato  de que todos os seres humanos são pecadores, sem exceção.  Isto é , os versículos de 1:26-27 devem ser interpretados a partir desse objetivo da epístola e esta carta não foi escrita para julgar a homossexualidade em si.  Para Paulo o fato de não aceitar Deus como Deus, é a raiz do pecado e fala ser a pessoa [digna de morte] (1:32). Neste trecho, não é claro que Paulo faz ou não referência ao lesbianismo. Mas comparando as menções nas frases anterior e posterior, parece que  Paulo fala do lesbianismo. Na Bíblia hebraica e nas literaturas grega e romana não existem  proibições ao lesbianismo. Neste sentido, é estranho que Paulo faça referência ao homossexualismo e ao lesbianismo. Mas,  se o objetivo de Paulo é a mostrar que todos os seres humanos estão  sujeitos ao pecado, ele tem razão de citar o homossexualismo e o lesbianismo.
Paulo não enfatiza especificamente a homossexualidade como pecado, mas certamente a critica. A base da crítica é o pensamento grego [contra a natureza]. A expressão [contra a natureza] (para phusin) é precisa quando nas culturas grega e romana “condena-se” a prática  homossexual que objetiva ou atinge meninos (crianças); mas também não há base para tal “condenação”.
 Paulo também introduziu o pensamento grego helenista que condena o homossexualismo com relação à idolatria. (Sab. 14,12). Dentro da tradição judaica foi considerado que o homossexualismo é contra a natureza, mas não se explicitou o motivo da condenação.

D) Conclusão


Dentre as muitas interpretações sobre os trechos bíblicos que foram mencionados, podemos concluir o seguinte: 

 

1)     Há poucos lugares que mencionam a homossexualidade e esta nunca é colocada como tema principal do autor no Novo Testamento. E também, todas as menções dependem  de
uma base literal e tradicional.
2)     Não existe no Novo Testamento a idéia de homossexualidade que corresponda à orientação sexual. A Bíblia sempre cita homossexualidade em ligação com a prática
sexual que independe dos gêneros - masculino ou feminino.
3)     O Novo Testamento condena claramente o homossexualismo enquanto envolve meninos (crianças) e considera uma tal prática como desumana.
4)     A Bíblia considera o ato sexual entre pessoas do mesmo sexo como sendo mau, mas não fala porque é mau.
Portanto, a homossexualidade que o Novo Testamento questiona e a nossa concepção e questionamentos hoje sobre tal questão, é totalmente diversa. É impossível querer, a
partir de um trecho bíblico específico, tirar uma orientação eficaz sobre a homossexualidade para aplica-la em nossos dias sem contextualizá-lo e entende-lo em seu sentido original.

 

O estudo desse texto terá continuidade em uma segunda parte.

 

BIBLIOGRAFIA

 

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