PRONUNCIAMENTO DO REVERENDÍSSIMO DR. BARRY MORGAN AO SÍNODO DA IGREJA NO PAÍS DE GALES

 

Durante a última semana de abril, quando fui eleito Arcebispo de Gales, eu concedi cerca de vinte e cinco entrevistas a jornais e televisão, tanto em Inglês como em Galês. Dois temas dominavam as questões feitas. O primeiro era concernente ao constante declínio do número de membros da Igreja em Gales, particularmente nestes últimos dez anos, e o que eu pretendia fazer para reverter essa situação. ( É interessante notar que a mídia, ao final das contas, pensa que o Arcebispo tem real poder, inclusive, de mudar essa situação por si mesmo, e, não obstante eu já ter dito, inúmeras vezes, que ela não é uma questão de minha exclusiva responsabilidade, mas de todos nós, essa pergunta sempre é renovada ). Esse assunto é, com certeza, uma questão crucial e retornarei a ele num futuro pronunciamento pastoral, mesmo por que nós já estamos trabalhando sobre isso, no momento, na Diocese de Llandaff. Mas ele não é, definitivamente, uma questão concernente somente a mim. O segundo tema de questionamento é relativo à sexualidade humana. O foco em questão tem sido: devido à visão liberal sobre o assunto do Arcebispo Rowan ( como ele gosta de ser chamado de liberal! ), pretendo eu seguir a mesma linha?

 

Novamente  vemos aqui a idéia de que é o Arcebispo, sozinho, quem determina sobre tais questões! Tudo isso aconteceu, é claro, depois da indicação e subsequente desistência do Cônego Jeffrey John como Bispo de Reading e a posterior agitação, quando da eleição do Cônego Gene Robinson ao bispado de New Hempshire, nos Estados Unidos da América. Esses dois casos, para dizer o mínimo, ocasionaram debates em toda a Comunhão Anglicana e, também, fora dela. Esses dois eventos ainda não tinham ocorrido quando os Primazes se encontraram, no Brasil, em maio deste ano, mas, como resultado  dos mesmos, o Arcebispo de Cantuária convocou um encontro extraordinário destes, em Lambeth, em outubro. A imprensa tem me perguntado, constantemente, se eu tenho algum conselho a dar ao Arcebispo Rowan. Minha resposta tem sido, sempre, no sentido de que ele já recebeu conselhos suficientes, muitos deles inadequados e que não é parte do meu trabalho  aumentar os problemas que o Arcebispo Rowan já tem. Não é meu desejo, neste pronunciamento oficial, aprofundar o tema da sexualidade humana, em geral, ou de alguns relacionamentos sexuais em particular, mas o que eu quero fazer é tratar  de alguns temas genéricos que são mencionados aqui e o "pano de fundo" em torno do qual esse debate precisa ser conduzido.

 

Os cinco temas gerais que desejo abordar são:

 

· *A Autoridade e a Interpretação das Escrituras

· * A Natureza do Anglicanismo

· * O Processo de tomada de decisôes na Comunhão Anglicana

· * O peso das Resoluções de Lambeth

· * O tema da sexualidade em um contexto amplo

 

Cada um desses assuntos tem uma enorme amplitude em si mesmos e só o que posso fazer é abordá-los  com cuidado, mas ao fazê-lo, todos poderão ver como cada tema tem diversos desdobramentos, o que tem provocado toda essa agitação tão evidente dentro da Comunhão Anglicana.

 

 

 

 

 

1. A Autoridade e a Interpretação das Escrituras

 

A questão central, aqui, é o uso e a interpretação das Escrituras, já que os críticos da evolução interpretativa  das mesmas, dentro da Comunhão Anglicana, reclamam que as Escrituras devem ser seguidas sem  desvios.

 

A compreensão Anglicana das Escrituras é sintetizada nos Trinta e Nove Artigos de Religião. O sexto artigo de religião estabelece que o Antigo e o Novo Testamentos contém todas as coisas necessárias para a salvação. Ambos são a palavra de Deus, não porque Este tenha ditado cada palavra  a ser registrada neles, mas porque a Igreja acredita que Deus inspirou os autores humanos dos livros bíblicos e, através do Seu Espírito, revelou Seu Plano de Salvação para o mundo. As Santas Escrituras estabelecem as bases e os princípios guias para o nosso relacionamento com Deus e elas fazem isso por meio de narrativas, leis, profecias e poesia, através de uma coleção variada de documentos escritos por autores diversos, em diferentes tempos e lugares. Aqui devem ser encontradas as respostas do povo de Deus aos Seus atos salvíficos, os quais chegam a um "climax" com a vida, ministério, morte e ressurreição de Jesus, o qual, para os cristãos, é a face humana de Deus. O Novo Testamento testifica sobre Jesus e o efeito que Ele teve na comunidade cristã primitiva. Poderemos pensar, então, que se nós queremos saber o que a Bíblia diz sobre um assunto específico, tudo o que temos que fazer é procurar, ler o que está escrito nela e, então, aplicá-lo. A dificuldade é que este método de leitura pode nos trazer problemas - ex.: Êxodo 21:15 - "quem bater no seu pai ou sua mãe será morto", Êxodo 21:17 - "quem amaldiçoar o pai ou a mãe será morto", Deuteronômio 25:11-12 - " quando dois homens estiverem lutando, a mulher de um deles não deve chegar e agarrar o membro do outro, a fim de ajudar o marido. Não tenham dó nem piedade: cortem a mão da mulher que fizer isso". Deuteronômio 21:18-21 diz:" pode ser que um homem tenha um filho teimoso e rebelde, que não obedece aos  pais, nem mesmo depois de castigado. Então os pais devem levá-lo às autoridades da cidade e no lugar de julgamento na praça pública,  eles dirão: "Nosso filho é teimoso e rebelde; ele não nos obedece, gasta dinheiro à toa e é beberrão." Aí todos os homens daquela cidade o matarão a pedradas, e assim, vocês tirarão o mal do meio do povo. Todos saberão do que aconteceu e ficarão com medo". Deuteronômio 23:19 fala: "Não cobrem juros quando emprestarem dinheiro, comida ou qualquer outra coisa a um israelita".

 

É óbvio que eu escolhi , preferencialmente, alguns exemplos extremos para mostrar que nós não obedecemos totalmente as orientações bíblicas. Nós somos seletivos na maneira pela qual utilizamos a Bíblia, porque não cumprimos todas as suas determinações no modo em que foram estabelecidas. Assim, a questão é: como alguém interpreta as Santas Escrituras? A "Declaração de Consentimento” feita por todo o clero, antes de que este assuma as suas funções sacerdotais, diz o seguinte: "A Igreja de Gales é parte da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, adorando o Verdadeiro e Único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. Ela professa a única fé, como revelada nas Santas Escrituras e estabelecida nos Credos Católicos, cuja fé a Igreja é chamada a proclamar, novamente, em cada geração". Em outras palavras, ela tem suas raízes na Bíblia e nos Credos tradicionais., mas também reconhece que estas verdades tem que ser interpretadas, novamente, para cada geração e é aí que o problema começa. A questão, então, é: o que pode e o que não pode ser mudado? O que pode e o que não pode ser revisto? Dizendo de uma outra maneira, qual é o papel da Razão na Teologia Anglicana? Ou, como o Espírito nos lidera em direção à verdade, ao mesmo tempo nos capacitando para sermos verdadeiros e fiéis, considerando tanto a Escritura como a Tradição? Em poucas palavras, como  chegamos a uma concepção  de fé?

 

Deixem-me dar-lhes alguns exemplos a respeito do que estou falando. Através dos séculos, a Igreja tem se oposto a algumas práticas que são claramente mencionadas nas  Sagradas Escrituras e, por outro lado, tem permitido coisas que são proibidas pelas mesmas Escrituras. No Livro do Gênesis, ambos os relatos da Criação restringem os seres humanos a serem vegetarianos. Depois do Dilúvio, no entanto, a ingestão de animais foi permitida, desde que o seu sangue não fosse consumido. O Concílio de Jerusalém, conforme o Livro de Atos, manteve essa prática como obrigatória aos gentios convertidos ao Cristianismo. Os Cânones da Igreja Primitiva continuaram com essa proibição. Agostinho, no entanto, argumentou em prol de um relaxamento dessa proibição e o artigo dezenove dos Trinta e Nove Artigos de Religião refere que a Igreja de Jerusalém errou nesta e noutras questões. Algumas Igrejas, ainda hoje, continuam proibindo a ingestão de sangue, baseadas na determinação após o Dilúvio e o interdito imposto pelo Concílio de Jerusalém, mas muitas das Igrejas Ocidentais desconsideram essa determinação.

 

Passemos, agora, a outro exemplo. A prática da escravidão é aceita sem constrangimento no Antigo Testamento e Levítico 25 estabelece leis para se ter escravos. O Novo Testamento tolera a escravidão e Paulo meramente solicita que os escravos sejam bem tratados. Ele não intercede para que a escravidão seja proibida. Novamente a Igreja, com o correr dos tempos, começa a ver o processo da escravidão com outros olhos e considerou-a moralmente errada. A escravidão não é uma prática que possa ser defendida por nós, baseados em motivações escriturísticas. Nós, agora, argumentamos que nossa compreensão sobre a lei moral, fundamentada nos respeitos individuais, à luz do Evangelho, reclama, demanda que a escravidão não seja mais permitida. No entanto, muitos cristãos, de fato, invocavam as Escrituras contra aqueles que desejavam a abolição da mesma.

 

Ou, então, como mais um exemplo de mudança de concepção, tomemos a questão do divórcio. Jesus proibiu tanto o divórcio como a possibilidade de um novo casamento, em termos bem radicais. Ele afirma isso no Evangelho de Marcos 10:10-12: "aquele que se divorcia de sua mulher e casa com outra, comete adultério contra ele; e se ela se divorcia do seu marido e se casa com outro, ela comete adultério". Quando foi perguntado por que Moisés permitira o divórcio, Ele respondeu que isso lhes fora permitido devido à dureza de coração das pessoas, mas que a intenção original de Deus era a de que não houvesse divórcio e segundo casamento. Em outras palavras, Jesus reconheceu o que Moisés permitira, mas baseou sua própria proibição em outra porção do Pentateuco, demonstrando, com isso, que havia uma inconsistência  interna naqueles cinco livros. Vamos agora ver de outro modo, todo o argumento sobre o que Jesus estava legislando e se sua orientação sobre o divórcio foi um pouco diferente, comparando com outros pronunciamentos e ensinamentos Seus, em questões de moral. Vamos olhar o Evangelho de Mateus, que também menciona essa situação. No texto, há uma diferença significativa, comparando-se com o que é mencionado em São Marcos, a respeito do mesmo assunto : divórcio e segundo  casamento. Em Mateus 5:32 e 19:9, Jesus diz: "Eu porém vos digo que qualquer que repudiar a sua mulher, a não ser por causa de relações sexuais ilícitas, faz com que ela cometa adultério, e qualquer que casar com a repudiada, comete adultério”; "Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar a sua mulher, não sendo por motivo de relações sexuais ilícitas e se casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério". Em outras palavras, há uma inserção, aqui, da Comunidade de Mateus ao ensino original de Jesus, como se ele estivesse legislando para sempre e modificou Seu ensinamento sobre o divórcio. Relações sexuais ilícitas, para Mateus, mesmo que pudessem ser interpretadas como adultério, são base suficientemente fortes para um divórcio. Mais tarde, a Igreja Ortodoxa permitiu situações de divórcio e segundo casamento em determinadas circunstâncias: adultério, suspeita de adultério, tentativa de assassinato ou insanidade. Na tradição reformada, o divórcio é permitido, bem como um segundo casamento, de acordo com um critério pastoral à discrição do pastor e a Igreja Anglicana tem se movimentado nessa direção, permitindo o divórcio em caso de adultério. Obviamente, então, a Comunidade de Mateus não pensava que Jesus estivesse legislando para sempre, como já foi dito, e modificou o Seu ensinamento sobre o divórcio. Assim, aqui há uma evidente movimentação, tanto em comunidades do Novo Testamento bem como posteriormente, com relação a um claro ensinamento de Jesus. Um dos argumentos que temos usado na Igreja Anglicana é que reconhecemos o alcance do perdão e de uma segunda chance, em contextos bem particulares, a pessoas que falharam, mesmo conhecendo os ensinamentos de Jesus sobre o assunto, dando preferência a uma atitude pastoral em vez da interpretação literal de Suas palavras.

 

O modo pelo qual  temos sido moldados e formados como cristãos e o contexto no qual vivemos afetam a nossa interpretação das Escrituras. Diferentes pessoas interpretam as Escrituras de diferentes maneiras e frequentemente o texto básico, como acabei de mostrar, tem sido deixado de lado pela Igreja, em resposta às necessidades do mundo e a decorrente interpretação da mente de Cristo. Ao fazer isto, a Igreja não tem feito nada mais do que o próprio Cristo fez em seus tempos, ignorando partes do Antigo Testamento que determinavam que leprosos, prostitutas, gentios, pecadores e outros fossem considerados como impuros e excluídos da presença de Deus.

 

2. A Natureza do Anglicanismo

 

Na minha compreensão do fato, a Igreja Anglicana tem sido, desde o seu início, uma Igreja ampla e compreensiva. Ela tem sido, frequentemente, chamada de Igreja da Via Média, um caminho de centro. Isso não significa, certamente, que ela é a metade do caminho entre o Catolicismo Romano, por um lado, e o Protestantismo Reformado, por outro, mas mais  uma Igreja que formula suas interpretações a partir de muitas fontes e não está tão ansiosa em obrigar o seu povo a cumpri-las tão estritamente. Leiam novamente Cranmer  sobre a teologia da Eucaristia. Há momentos em que se pensa que ele era zuingliano, em sua ênfase  sobre a Santa Comunhão como uma lembrança, uma memória de um ato passado. Em outros momentos, ele enfatiza a presença real de Cristo nos elementos e, em outros, a real presença de Cristo no coração do fiel. Que tipo de presença, afinal, existe na Eucaristia? Pode-se ver este dilema nas palavras de administração da mesma no Livro de 1662, o qual foi a combinação do que Cranmer estabeleceu em seu Livro de 1549 e que foi posteriormente  reformado, em 1552. As palavras são: “o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que foram dados por ti, preservem teu corpo e alma para a vida eterna”; “toma e come este, em memória de que Cristo morreu  por ti e dele te alimenta em teu coração por fé e com ação de graças”. Esta é uma orientação claramente compreensiva e equitativa, que pode abraçar muitos pontos de vista. A Igreja Elisabetana seguiu as determinações de Elisabete I no sentido que ela não desejava espionar as almas das pessoas. Sempre tem havido espaço para uma variedade de interpretações sobre várias coisas na tradição anglicana; por exemplo, o papel dos bispos. São os bispos parte da essência da Igreja, isto é, sem bispo não há Igreja? São eles parte do bom modo de ser da Igreja, isto é, são eles somente um modelo de exercer uma boa supervisão, uma perspectiva que é menos problemática do que outros métodos de administração da Igreja, ou são eles parte da plena essência da Igreja, isto é, a Igreja só pode ser fundamentada em sua plenitude quando há um episcopado como parte das ordens do ministério? Todos esse três pontos de vista são considerados por diferentes anglicanos.

 

Cristãos anglicanos devotados, depois de orações, debates e reflexões, têm chegado a amplas e diferentes conclusões, numa grande variedade de questões doutrinais e morais, conclusões que alguns de seus irmãos cristãos vêm como a mais errada ou a mais perversa. Assim, aqui, nós somos como cristãos lutando sobre o mesmo tema, lendo as mesmas Escrituras, tendo que ouvir uns aos outros, como irmãos membros do Corpo de Cristo e, ao mesmo tempo, chegando a diferentes conclusões. Isto é o que um imperfeito Corpo de Cristo é, reconhecendo que todas as nossas compreensões são parciais, provisórias e que nós precisamos nos abrir uns para os outros e permanecer em comunhão, uns com os outros.

 

É isto possível? Em sua palestra na Conferência de Lambeth de 1998, o Arcebispo Rowan colocou a situação nestes termos. “No Corpo de Cristo, eu estou em comunhão com os cristãos do passado, muitos dos quais vejo cometendo profundos e danoso erros – aqueles que justificavam a escravidão, a tortura e a execução de hereges. Eles justificavam essas atitudes baseados na mesma Bíblia que eu leio, e estas pessoas oravam bastante, talvez mais intensamente do que eu jamais tenha feito. Como eu estou relacionado a elas? Como seria mais fácil se eu não tivesse que reconhecê-las como parte de minha comunidade, a vida da qual eu partilho; é que estas são as consequências emanadas da fé que eu compartilho com essas pessoas. Eu não posso simplesmente condená-las, mas me colocar ao lado delas em minha própria oração; mesmo não sabendo como, na estranha economia do Corpo de Cristo, suas vidas e a minha podem atuar juntas para a nossa salvação comum. Em nenhum momento  penso que elas estão certas nas questões as quais mencionei, mas acredito que elas sabiam o que as suas próprias comunidades cristãs ensinavam na época, assim como sei o que eu tenho aprendido, do mesmo modo particular e concreto. Quando  estou na presença de Deus ou à Mesa do Senhor, elas são parte do grupo ao qual eu pertenço”. Em outras palavras, nós temos que conviver com diferentes pontos de vista, no que concerne à vastidão de temas referentes à questões morais. Aqueles que ameaçam com rupturas sobre qualquer assunto deveriam ouvir com atenção a sabedoria contida nas palavras do Arcebispo Rowan, especialmente quando o tema está mais no campo da moral do que da doutrina.

 

3. O Processo de tomada de decisões na Comunhão Anglicana

 

Nós não temos um sistema centralizado de governo na Comunhão Anglicana. O Arcebispo de Cantuária não é nosso papa. Os Bispos e a Conferência de Lambeth não têm o poder de legislar. O Conselho Consultivo Anglicano é precisamente isto – um corpo consultivo. O Primazes reunidos também não têm autoridade para legislar. A família anglicana e a identidade anglicana são definidas por nossa aceitação das Escrituras, dos Credos, dos dois sacramentos instituídos pelo Senhor e do episcopado histórico, localmente adaptado – o que se convencionou chamar de Quadrilátero de Lambeth. Cada província é autônoma. Obviamente, nós temos de ser sensíveis às necessidades uns dos outros e à nossa vasta herança de fé, mas, ao final das contas, somos províncias auto-governáveis, com os nossos próprios sistemas de escolha de bispos, nossos próprios procedimentos sinodais e nossa própria maneira de lidar com questões morais. Em outras palavras, como anglicanos, nós acreditamos que aprendemos nossa fé num lugar específico, seja ele em Gales, Inglaterra, Canadá ou na África. Isto não significa que somos dominados pela cultura local, mas sim que as comunidades cristãs em diferentes partes do mundo têm ênfases diversas. Algumas províncias deram passos distintos, com relação à ordenação feminina ao sacerdócio e ao episcopado. A Igreja da Nigéria permite a poligamia, porque ela é encontrada na Bíblia, embora nós no ocidente acreditemos nas relações matrimoniais monogâmicas. Isto é parte do que significa pertencer a uma comunhão mundial, a qual não é uniforme e monocromática.

 

4. O peso das resoluções de Lambeth

 

As resoluções não são prescritivas, regras a serem obedecidas em todas as províncias da Comunhão Anglicana. Em Lambeth, os bispos da Comunhão concordam sobre a importância de certos temas e os recomendam para estudo e discussão e possível implementação para a igreja toda. O problema é que a resolução sobre sexualidade humana tornou-se a única resolução da qual as pessoas se lembram e ela parece ter se transformado na resolução definitiva sobre o que é e o que não é  ser cristão e, finalmente, sobre o que é e o que não é  ser anglicano. Eu poderia jurar que Lambeth 98 não discutiu sobre nenhum outro assunto. De fato, há sessenta e duas páginas de resoluções abordando temas tais como a declaração universal dos direitos humanos, liberdade e tolerância religiosa, pessoas sem teto e sem raízes, justiça para mulheres e crianças, as dificuldades do povo em várias partes do mundo, armas nucleares, as minas enterradas no solo e a dívida externa. Qual província e diocese levou a sério o desafio de fundar um programa internacional de desenvolvimento, contribuindo com 0.7% do total anual dos rendimentos diocesanos para esta causa?

 

Mais do que isso, a resolução sobre sexualidade humana é bastante mais ampla do que uma resolução sobre homossexualidade. Ela fala sobre violações de mulheres, AIDS, e sobre o abuso de crianças. Ela é um documento que foi discutido por duas semanas inteiras por um grupo de bispos  que praticamente se debruçou somente sobre essa questão. Eles eram bem diferentes entre si, a respeito de suas opiniões em suas abordagens sobre o assunto. Essa comissão foi coordenada pelo Arcebispo da África do Sul e ele disse que depois de duas semanas de oração e estudos, eles chegaram a uma declaração com a qual todos podiam concordar. Quando eles levaram sua posição até à sessão plenária de todos os bispos da Comunhão, ele pensava que era aceito por todos que o texto final da declaração não poderia ser modificado ou emendado, mas recebido como a conclusão da compreensão do grupo que estudara o assunto. No entanto, o documento elaborado por essa comissão foi emendado, o caos instituído e isto abalou o texto tão cuidadosamente elaborado. O debate em Lambeth sobre sexualidade humana foi uma lição bem objetiva sobre como não se fazer teologia. Nenhuma outra resolução foi desafiada dessa maneira no plenário e muitas delas, para ser honesto, foram confinadas à lata de lixo. Em tudo isso, nós sempre temos que lembrar que essa não é uma questão doutrinária, mas moral.

 

5. O tema da sexualidade num contexto amplo

 

Finalmente, agora, quero considerar as amplas questões concernentes à Missão e Ministério da Igreja. Depois de Lambeth 98, o então Arcebispo de Cantuária determinou a um grupo de bispos que olhassem mais de perto o tema da sexualidade humana. O grupo chegou à conclusão de que o processo legislativo era um modo inadequado de discernir sobre a mente de Cristo, bem como sobre  alguns dos temas sensíveis com os quais nos defrontamos, na medida em que continuamos a crescer como uma comunhão de igrejas. O que nós precisamos é de conversações face a face, através das fronteiras  provinciais.

 

Recentemente voltei de Genebra, da reunião do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas, o qual também está estudando temas como sexualidade humana e, para isto, foi definido um grupo de trabalho, depois da Assembléia de Harare, em 1998, para realizar  o que foi chamado de espaço para discussão, debate  e análise. Um grande número de consultas sobre essa questão tiveram lugar em Bossey, onde os participantes estavam em condições de se posicionarem, de se abrirem uns para os outros e de compartilharem reflexões. O grupo concluiu que a avalanche de posições e a elaboração de declarações autoritárias são contraproducentes e aprofundam as dificuldades dentro das e entre as Igrejas. O que precisamos é de espaço para encontros, análise e diálogos... Em outras palavras, o Conselho Mundial de Igrejas contribui para os bispos pós-Lambeth de uma maneira mais criativa, no sentido de estímulo a conversações e diálogo, e não de determinações fechadas e estridentes.

 

A Comunhão Anglicana tem um grande desafio em aprender sobre este método de dialogar, porque o que tem acontecido nos últimos meses não tem sido nada edificante. Não tem acontecido espaço para comunicação ou conversações reais, somente declarações e contra-declarações de diferentes pontos de vista. Que tipo de testemunho essas atitudes têm dado ao mundo sobre o nosso modo de nos comprometermos com Deus e uns com os outros? A Igreja declara ser o Corpo de Cristo, onde seus integrantes são chamados a não olhar os seus próprios interesses, mas os interesses dos demais membros do Corpo ( Ler Efésios). É mais verdadeiro testemunhar o Evangelho quando se tenta servir a Cristo através de uma outra pessoa. Em outras palavras,  precisamos ser menos atentos a nós mesmos e mais aos outros, porque Deus deu menos atenção a Si mesmo, por nossa causa. Este é o ponto central do Evangelho. Prestando atenção a pontos de vista estritos, sobre este assunto, estamos perdendo algo fundamental como Comunhão, a respeito dos valores essenciais do Evangelho. Ou, utilizando a linguagem pitoresca de Jesus, temos engolido camelos e coado mosquitos, pois parece que estamos esquecendo que vivemos num mundo devastado pelo derramamento de sangue, pela pobreza e pelas doenças. Nós estamos em perigo na Comunhão Anglicana, ao fazermos deste tema sexual e relacional, o único assunto realmente importante, quase que o tema definitivo para quem é ou não é anglicano ou até cristão. Se  estamos fazendo isto, então corremos o risco de nos equivocarmos, pois devemos tratar seriamente tanto os valores centrais do Evangelho como as tradições de nossa Igreja.

 

 

 

Porto Alegre, 07 de outubro de 2003.

 

Texto traduzido pela Profª. Vera Lucia Simões de Oliveira

Coordenadora Acadêmica do SETEK