Uma reflexão sobre a evangelização

e

 a renovação do anglicanismo[1]

   

No  dia 11 de março, em aula no Instituto Anglicano de Estudos Teológicos - IAET, o Prof. Dr. Jaci Correia Maraschin nos levou a refletir sobre a “renovação do anglicanismo”. Conforme meu entendimento, na visão deste ilustre professor e clérigo anglicano, a Igreja, “enquanto modelo principal da missão, precisa criticar as próprias estruturas para transformá-las” e isto implica, segundo Maraschin,  libertar-se de um tradicionalismo, que apenas reproduz uma estrutura arcaica. Vejo, como estudante do IAET que há um anseio, um desejo, por parte dos colegas,  de uma Igreja que esteja inserida na realidade cultural brasileira, assumindo as nuances fora do tradicionalismo. O resultado de minha reflexão levou-me a retomar alguns trabalhos sobre o processo de evangelização no Brasil e a necessidade de inculturação do Evangelho no contexto social brasileiro. Neste sentido, entendo a inculturação do Evangelho, como uma proposta  que se encaixa muito bem dentro da matriz renovadora e inculturadora da mensagem cristã, pois sinaliza rupturas com um modelo de Igreja, cuja prática pastoral nem sempre está atenta à realidade cultural do povo brasileiro. Assim, inicio minha reflexão tecendo algumas considerações que acredito serem pertinentes para o momento sobre o processo de renovação e a proposta de uma nova evangelização no Brasil.

O desafio de uma evangelização inculturada[2]

 

As transformações ocorridas nestes últimos quatro séculos vêm colocando em questionamento o monopólio do sagrado pelas Igrejas tradicionais, principalmente pela Igreja Católica Apostólica Romana, que ainda hoje se faz sentir na nação brasileira.

A verdade é que as Igrejas tradicionais não se encontram nos cantos das cidades, ou seja, nos bairros em formação, em locais miseráveis e em favelas encarapitadas em morros. Este fato relembra uma vez mais a dificuldade de contextualização do Evangelho na sociedade moderna, pois o fato é  que uma pastoral terá maior influência na sociedade na medida em que for capaz de inserir-se na mesma.

Inculturar o Evangelho é o grande desafio das Igrejas numa sociedade em que a experiência religiosa vem sofrendo transformações em decorrência do processo de expansão das cidades.

Mas onde buscar as referências que facilitem uma pastoral inculturada? A  reflexão teológica tem oferecido uma referência primordial: a encarnação do filho de Deus. Deus assumiu na pessoa de Jesus de Nazaré a natureza humana. Jesus é o modelo de inculturação, pois na encarnação assume e exprime todo o humano. Na esteira da trajetória do Verbo Encarnado, Deus, por meio de seu Filho, nos ensina a assumir sem aniquilar o outro.

O processo de evangelização, na prática dos primeiros evangelizadores, apresentava-se, nos moldes de Jesus de Nazaré, como um processo inculturado, no qual existia um esforço para pensar e agir a partir da realidade cultural dos seus simpatizantes. A dimensão cultural não foi rejeitada, mas incluída na perspectiva dessa evangelização. A tentativa propunha a dimensão do sagrado na convivência do dia-a-dia, sem instituir uma prática  desrespeitadora dos primitivos valores de cada segmento.

Nos 500 anos de evangelização católica na  América Latina, diversas falhas foram apontadas, principalmente sobre a precipitada condenação dos deuses dos povos indígenas e africanos. A evangelização colonial, por exemplo, não se assentou sobre o amor de Deus aos povos, mas sim, solidária aos atos do colonizador e na transposição de uma fé alheia a dos colonizados.

Atualmente se fala que as Igrejas tradicionais, devem ressituar-se no cenário moderno brasileiro, adaptar sua linguagem, atualizar seus métodos e desdobrar seu ardor missionário. Mas só isto não basta para que ocorra uma evangelização verdadeiramente inculturada. A inculturação não pode ser entendida apenas como uma estratégia de evangelização, um novo marketing religioso[3]. No processo de evangelização, a inculturação é uma conseqüência já implícita na vida dos povos, de alta dinamicidade, que deve ser aceita e preservada. Esse processo não é só uma questão cristã, mas inter-religiosa e ecumênica, pois nos coloca diante do pluralismo religioso a ser respeitado.

Infelizmente a concretização do discurso religioso cristão com relação a esse processo ainda não é uma realidade assumida pelas igrejas como um todo, pois isso implicaria uma renovação estrutural e a modificação da postura pastoral, o que não está ainda clarificado.

A inculturação é um processo dinâmico e lento, o que implica uma ação consciente, que traz  algumas exigências, como o diálogo e a abertura para com os diversos sujeitos sociais.

Assim, acreditamos que uma evangelização realmente inculturada se assumida pelas igrejas poderá levar à formação de Igrejas autóctones, ao reconhecimento real da competência da Igreja local, a redimensionar o sentido de salvação (complementariedade de caminhos da salvação), a repensar sua universalidade e recriar sua catolicidade, assumindo as diferenças em uma unidade articulada e policêntrica. Daí, não só afirmarmos a importância da inculturação como estarmos certos de seu potencial revolucionário. Uma evangelização inculturada acenará sempre para a necessidade de um diálogo sócio-cultural simétrico e teologicamente macroecumênico ajudando o “outro” na conquista de sua autonomia.

Na esteira da reflexão sobre a inculturação, propomos a prática do diálogo como modalidade concreta das relações entre as diversas religiões. Quem diz diálogo, fala de reciprocidade, igualdade de condições e de dignidade de parceiros. Se as Igrejas não se abrirem para esse diálogo, a evangelização de que tanto falam será apenas um discurso retórico restrito aos ambientes eclesiásticos e acadêmicos.

Ser sal e luz para os povos, implica numa profunda conversão das Igrejas, se estas quiserem ser a continuidade de uma proposta libertadora de Jesus.

Como cristão, vejo que uma evangelização a partir da cultura do povos será um grande desafios para as Igrejas neste terceiro milênio, pois uma evangelização inculturada pressupõe mudanças significativas nas estrutura das Igrejas que querem dar razão de sua esperança.

A vivência autêntica do Evangelho implica assumir, como o Apóstolo Paulo, a realidade dos povos no respeito às suas mais variadas manifestações culturais, pois ele, como um grande evangelizador, soube perceber nas outras culturas a presença de Deus.

 

Sugestão bibliográfica para aprofundamento

 

ARRUPE, Pedro. A obra da inculturação.  São Paulo: Loyola, l980. (Coleção Ignatiana, 8).

AZEVEDO, Marcello de Carvalho. A incomunicação na comunicação das religiões.  Síntese. l976,  p. 27-3l.

_____. Modernidade e Cristianismo.  O desafio à inculturação. São Paulo: Loyola, l981.

_____. Comunidades Eclesiais de Base e Inculturação. São Paulo: Loyola, l988.

_____. Evangelização, inculturação e vida religiosa. Convergência, n. 209. 1988,  p. 33-45.

SUESS, Paulo.  Catolicismo popular no Brasil. São Paulo: Loyola, 1979.

______. Do grito a canção. São Paulo: Paulinas, 1983.

______. Solidariedade e encarnação para uma clarificação dos conceitos. In:  PORANTIN, 1985. v. 82.

______. Inculturação e libertação. Petrópolis-RJ: Vozes, 1986.

______. Revolução Cultural na Sociedade e na Igreja (Exigências de uma prática cultural a partir da instrução Libertatis Consciência). REB, v 46. Petrópolis-RJ: 1986 . p. 315-324.                                    

______.  Inculturação : Desafios - Caminhos – Metas. REB, v. 49. Petrópolis-RJ: l989. p. 81-126.

______. Evangelizar a partir dos projetos históricos dos outros. São Paulo: Paulus, 1995.



[1] Ivo Xavier de Oliveira é mestre Ciências da Religião pela PUC-SP e aluno concluinte do curso de Teologia na Faculdade Paulo VI e aluno do IAET, autor do livro “Igreja Universal do Reino de Deus: uma instituição inculturada? São Paulo: Pulsar, 2004. Contatos: ivoxavieroliver@ig.com.br

[2] Conforme AZEVEDO, “Inculturação é o processo de evangelização pelo qual a vida e a mensagem cristã são assimiladas por uma cultura de modo que não somente elas se exprimam através dos elementos próprios da cultura, mas venham a constituir-se também princípio de inspiração” . Cf. Marcello de Carvalho AZEVEDO. Evangelização, Inculturação e Vida Religiosa. In Convergência, n. 209. Petrópolis – RJ: Vozes,  1988, p. 35.

[3] Algumas experiências católicas do tipo RCC, parecem estar mais preocupadas em recuperar os fiéis que se afastaram da Igreja e em reafirmar a ortodoxia católica como a única expressão da verdadeira Igreja.