Missão, evangelização e diakonia

 

(Palestra apresentada na Jornada Teológica do IAET, “Espiritualidade, ministério e missão”, 11-13 de julho de 2008, Casa Provincial La Salle, Rua Santo Alexandre, 93, Vila Guilhermina-Esperança, São Paulo)

Introdução

Não é por acaso que a reflexão sobre missão fecha esta jornada, que tem como temática: Espiritualidade, ministério e missão.  E digo isso porque espiritualidade não pode ser entendida como um conjunto de práticas rituais, ou o compromisso mecânico de ir todos os domingos ao culto ou à missa. Espiritualidade é sentir-nos comprometidos e enviados em missão, clérigos e leigos, na luta pela vida e pelo Reino. Porque toda pretensa espiritualidade, orientada para nós mesmos ou para a Igreja como centro de tudo, é o contrário da proposta paulina de viver segundo o Espírito de Cristo.

 

Assim, espiritualidade significa nos encontrarmos como missionários – clérigos e leigos - com o Deus vivo, na vida cotidiana, no dia-a-dia. Espiritualidade é deixar-nos queimar pelo fogo transformador e libertador do Espírito. Transformação que significa aceitar nos renovarmos e apresentarmos sempre um rosto renovado, como pessoas, comunidades locais e como igreja, para poder realizar a tarefa de unir-nos na missão de Deus no mundo. 

 

Mas gostaria, antes de abordar a temática propriamente dita, de realizar algumas clarificações necessárias.

 

 Dois erros fundamentais

Falar da missão e unidade não é nada novo. Muito já se discutiu e muito já se escreveu ao redor da temática da missão e da unidade da igreja. Mas geralmente, quando pensamos em missão,  falamos de unidade da igreja e de missão. Colocando o binômio nessa ordem. No entanto, biblicamente falando, a missão vem primeiro e depois o momento de organização das comunidades. Antes de haver igreja, existiu o movimento de Jesus, em que coexistiram uma pluralidade de tendências teológicas e visões, muitas vezes opostas, que encontraram sua unidade, pela obra do Espírito, na riqueza de sua diversidade.

E é precisamente uma imagem falsa das origens do cristianismo que talvez tenha sua expressão formal na ordem costumeira do binômio, o que, em grande medida, levou a visões missiológicas, eclesiológicas e, inclusive, ecumênicas erradas.

Portanto, se vamos repensar o sentido da missão no meio das complexidades eclesiais e sociais de nosso presente brasileiro e latino-americano, convém colocarmos as coisas no seu justo lugar para evitarmos repetir novos erros.

Recorro, aqui, à ajuda das reflexões do conhecido biblista Pablo Richard[1]. Segundo ele, esta distorção do sentido de missão vem de dois erros fundamentais e concretos com relação às origens do cristianismo. O primeiro é de ordem cronológica e o segundo, de ordem geográfica. .

O erro cronológico consiste em imaginar-se que as estruturas da igreja derivam diretamente do período do Jesus histórico. Dessa maneira, pula-se um período histórico, pois se passa de 30 d.C. ao período posterior ao 70 d.C., quando realmente acontece a expansão do cristianismo. Mas, antes de haver igreja, fato que somente é uma realidade após  o ano 70 d.C, existiu o “movimento de Jesus”. Portanto, primeiro é o tempo da missão, e depois é o tempo da Igreja.

Sendo assim, é também algo simplista, como bem aponta Néstor Mínguez, pensar no cristianismo no singular, quando realmente deveríamos pensar no cristianismo no plural, ou seja, “cristianismos”[2]

 

Para muitos cristãos a Trindade é: Pai-Filho-Igreja, deixando eles, assim, no esquecimento, a ação do Espírito na longa e plural história que precede a fundação da Igreja[3]. Realmente, a visão de um movimento unificado é a visão do historiador Eusébio de Cesaréia. Uma visão, por assim dizer, “oficial”, que serviu para legitimar a cristandade que emerge da síntese constantiniana, é uma visão unitária, talvez pensada por pressão externa e não isenta de contradições e exclusões.

Então, partindo desta imagem idílica e distorcida das origens do cristianismo como um movimento único, com uma estrutura institucional e um corpo doutrinal uniforme, em que a diversidade era compreendida como sinônimo de heresia, a imagem dominante dentro do pensamento eclesiológico e ecumênico moderno interpretou as palavras de Jesus “que todos sejam um” (Jo 17,21) tendo como fundo uma visão eclesiocêntrica.

Já o erro geográfico consiste em apresentar as origens do cristianismo na direção geográfica que vai de Jerusalém a Roma, ou seja, orientadas para o ocidente. Esta visão unilateralmente helenizada é uma interpretação errada ou reduzida das tradições neotestamentárias. E é um erro, porque considera a obra de Lucas (Lucas-Atos) e a tradição paulina como as únicas fontes para reconstruir as origens do cristianismo, deixando de lado outras importantes fontes canônicas, inclusive a própria obra de Lucas e Paulo, assim como fontes não canônicas, como o Evangelho de Tomé. Dessa maneira, deixa-se para fora a área de Galiléia (cf. Marcos/Q), berço do cristianismo, e, além disso, a região dos pobres e do campesinato. Também se deixa fora o Sul, ou seja, o norte da África (cf. Atos 8,26-40; 11,20-21; Ga 2,7-9), isto é, as culturas negras. Além disso, passa-se por cima da missão ao Oriente, ou seja, as culturas e raças não-ocidentalizadas (cf. Evangelho de Tomé). Dessa maneira, nasce uma visão distorcida ocidental, nortista, branca e desorientada das origens do cristianismo.[4]

 

No contexto brasileiro e, portanto, também latino-americano, para se colocarem missão e unidade no seu justo lugar, e em consonância com o contexto multicultural brasileiro, assim como tendo-se também como fundo uma realidade de exclusão, pobreza e marginalidade,  faz-se necessário recuperar as verdadeiras origens missionárias do cristianismo. Dessa maneira, poderemos recuperar realmente nossa identidade, baseada em Jesus, o Nazareno, o Galileu, e na verdadeira tradição apostólica.

Por isso:

ü         Recuperar a missão na Galiléia é recuperar a memória dos empobrecidos, dos excluídos e dos marginalizados, como centro da identidade do cristianismo.

ü         Recuperar a missão no Sul, ou seja, na África, significa valorizar as culturas e a religião das centenas de milhares de escravos e escravas, que foram desarraigados de seus lugares de origem e hoje integram o caleidoscópio étnico, cultural e religioso de nossos povos latino-americanos. Mas também significa recuperar as culturas e a religiosidade de nossos indígenas, desvalorizadas ou marginalizadas nas visões teológicas e missionárias dominantes.

ü         Já recuperar a missão para o Oriente é valorizar as culturas, religiões e raças não ocidentais.

 

Assim, recuperar-se a missão na Galiléia significa recuperar-se o futuro de todos os povos do Sul. Enquanto recuperar-se a missão na África e no Oriente significa afirmar-se simbolicamente o caráter macro-ecumênico e extra-eclesial da missão.

 

Tendo como pano de fundo as anteriores clarificações, podemos, agora, começar a refletir sobre o sentido de missão em nosso contexto brasileiro e latino-americano. Então, a seguir, passo a refletir sobre a relação entre missão e evangelização.

 

Missão e evangelização

Poder-se-ia pensar que a principal tarefa da igreja é a missão. Mas, no discurso programático de Lc 4,16ss, a tradição lucana afirma que Jesus foi enviado “para anunciar e para proclamar a boa notícia aos empobrecidos”, ou seja, evangelizar. Então, a missão, como muito bem reafirmou a Conferencia de Lambeth de 1988, não é a principal tarefa da igreja. A igreja é enviada a evangelizar, ou seja, proclamar  boas notícias.[5]

E evangelizar poderia significar a proclamação do evangelho por palavras explícitas sobre Jesus como nosso libertador e salvador. Mas o processo de anúncio do Reino vai muito além. Anunciamos por meio de ações e de palavras. Dessa maneira, as palavras só fazem sentido se apelam para interpretar corretamente os signos que vêm do mundo, da sociedade e que revelam a presença missionária de Deus, no mundo e na sociedade, nos atos de justiça, de amor e de solidariedade. Trata-se de proclamar, ou seja, evangelizar mediante a prática, que inclui palavra e ação, o Reino de Deus.

Por tudo isso, pode afirmar-se que a igreja só compartilha a própria missão de Deus. Quando Moisés é enviado a tirar  um grupo de hebreus do Egito, é Deus mesmo quem entra no ato missiológico de libertar: Deus desce (Ex 3,7ss). E aqui, “hebreu”  refere-se a grupos marginais e desqualificados sociais que viviam à margem das cidades estados do Antigo Oriente.[6] Por outro lado, os profetas são enviados a falar “Palavra de Deus”. Sendo assim, a igreja é a comunidade que é enviada em missão ao mundo, em nome de Deus, a proclamar a boa notícia.


Portanto, somente se dá o processo evangelizador quando se dão, de maneira simultânea, vários fatores: proclamar as boas notícias do Reino, exercer o serviço do amor e da solidariedade concreta com quem está necessitado - os empobrecidos, os fracos, os discriminados, os marginados, os excluídos -, trabalhar a favor de tudo o que preserve a vida e a dignidade humana, preservar os recursos da natureza e cuidar deles, denunciar as injustiças que se cometem em nosso mundo e lutar por um mundo e uma sociedade mais justa e melhor para todos. É, finalmente, e acima de tudo, ser fermento de esperança e boa notícia. E já aqui nos encontramos no campo da diakonia.

 

Missão e diakonia

O NT nos diz que a diakonía não é só uma parte da atividade da igreja. A diakonia é o que identifica a igreja, é a própria identidade da igreja.

É pela diakonia que Jesus se define assim mesmo: “o Filho do Homem não veio  para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45). E este Jesus servo é colocado como modelo para a missão dos discípulos e das discípulas: seguir a Jesus é servir: “se algum quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servidor de todos” (Mc 9,35). Então se é discípulo ou discípula na medida em que se é servidor ou servidora.

A imagem central para pensar sobre Jesus no NT foi a figura do servo, a partir dos Cantos do Servo, segundo a profecia do Segundo Isaías. Dessa forma  apresentam-se a vocação e a missão de Jesus. Sua tarefa é assumir a missão do profeta-servo, como nos diz Isaías 61,1-2: “anunciar a boa nova aos pobres, sanar os corações quebrantados, proclamar liberdade aos oprimidos”; texto que é retomado por Lc 4,16s, no discurso programático na sinagoga de Nazaré.

Por isso, toda a tarefa de dedicação ao evangelho é diakonia, desde a missão, até a edificação e o cuidado da comunidade. Quem se entrega à proclamação do evangelho é diácono ou diaconisa, ou seja, servo ou serva. Em Atos, insiste-se em designar a proclamação do evangelho como diakonia (cf. Hch 6.4; 20,24; 21,19).Por isso, diz-se que a principal ordem sagrada é a dos diáconos, e que cada presbítero e cada bispo é, acima de tudo e sempre, um diácono.[7]

 

Sendo assim, a identidade da comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus é o SERVIÇO. A diakonia, no seu sentido bíblico, é um conceito cristológico e eclesiológico, que expressa a natureza do serviço solidário da igreja no seu sentido amplo ou holístico.

Em palavras da consulta organizada pela Comissão de Ajuda Inter-eclesiástica, Refugiados e Serviço Mundial em Larnaca/1986: “Diakonia é serviço à plenitude do ser humano, de toda a humanidade e de toda a criação e significa compromisso para a reconciliação, a justiça social e a liberação”.[8]

Também, na Consulta Mundial sobre Koinonia, organizada pelo Conselho Mundial das Igrejas em El Escorial, Espanha/1987, ao falar-se da missão holística da igreja,  afirma-se que “todas as atividades da comunidade cristã: evangelização, diakonia, a luta pela dignidade humana, pela paz e pela justiça pertencem à única missão de Deus... por isso, responder somente a uma parte da tarefa missionária distorce o verdadeiro sentido da missão na sua plenitude”.[9]

Dessa maneira, a missão da igreja é conseqüência do projeto histórico do Reino, que afirma a opção pela vida plena e abundante, que inclui a satisfação das necessidades materiais e espirituais do ser humano e o cuidado de seu habitat, ou meio ambiente.


Portanto,  faz-se necessário repensar-se a relação entre missão e diakonia, em nosso contexto brasileiro e latino-americano, como “solidariedade” e “transformação”. E solidariedade e transformação significam enfrentar as realidades humanas, reagir ante as injustiças e o sofrimento humano. Para esse propósito, faz-se preciso, primeiro, sensibilizar, e depois capacitar a comunidade cristã, clérigos e leigos, para serem agentes de mudança, dignificarem a vida humana e serem fermento transformador para a construção de uma sociedade mais justa para todos e todas.

Então, a diakonia não deve entender-se como uma tarefa diferente da evangelização. Não se trata de evangelizar e depois servir. A diakonia não é tarefa, pois nossa única tarefa é evangelizar, proclamar as boas notícias por obras e por palavras.

A diakonia, entendida assim como serviço solidário e transformador, deve ser o método ou o caminho missiológico da comunidade de Jesus. Diakonía é tudo o que se faz, pois Jesus é o servo por excelência. Diakonia tem que ser tudo na igreja. Não é um aspecto, é todo o ser da igreja e tudo o que a igreja faz.[10]

A vocação da igreja, como comunidade liberada, é ser signo profético de liberação e transformação. É ser uma comunidade que encontre sua identidade e koinonia (unidade/comunidade) por meio de sua inculturação no povo em que foi colocada para servir. Porque uma igreja que se transforme em uma comunidade que se preocupa simplesmente em abarrotar bancos, e não em encarnar-se criadoramente na sociedade, nunca será fermento profético da transformação histórica e social.

A vocação da igreja é experimentar a missão no poder do serviço solidário (diakonia). É ser fermento de esperança em meio da desesperança. É contribuir e unir-se a outros no sonho de uma sociedade diferente, de justiça para todas as pessoas. É ter consciência de ser enviada (missão) para afirmar sua koinonia (unidade/comunidade)  na diakonia ou serviço solidário, contribuindo, assim, para a reconstrução, em nosso mundo, do Corpo de Cristo, fragmentado e mutilado pelas injustiças humanas.

Para novas avenidas missiológicas e ecumênicas

Como entender, então, nossa missão e afirmar a unidade como comunidade de Jesus, o Galileu, em nosso contexto brasileiro e latino-americano?

Sem querer dar receitas, e sim para provocar a reflexão, gostaria de partilhar algumas idéias:

Sendo a primeira tarefa da igreja evangelizar, ou seja, “proclamar boas notícias aos empobrecidos”, evangelizar, em nosso contexto, significa denunciar tudo o que faz com que as pessoas não possam receber boas notícias, proclamar que a vida plena é realmente possível pela força que Deus nos dá e que se manifesta na capacidade humana de mudar a vida coletivamente, de resistir às dificuldades e sobreviver.

E a missão de evangelizar se concretiza na koinonia (unidade/comunidade) com todos e todas na reconstrução do corpo fragmentado de Cristo, que é a humanidade injustiçada, afirmando a diakonia, ou seja, o serviço solidário,  como o caminho da igreja na sua tarefa missionária. Porque a missão tem que se concretizar na unidade de palavra e ação, no trabalho da igreja para o mundo. E será precisamente a tarefa diakonal a que nos fará reconhecer-nos uns aos outros como comunidades unidas em ser fermento do processo humano de transformação de toda a humanidade em povo de Deus.

Por isso, faz-se necessário recuperar a visão de que primeiro é o tempo da missão e depois o tempo da Igreja. Porque, fazendo isso, desconstruímos a visão eclesiocêntrica, com a qual se interpretou a oração de Jesus, e reconstruímos assim o verdadeiro sentido mundo-cêntrico, humano-cêntrico e cosmo-cêntrico, e, portanto, holístico, da missão.


Também, a vocação de sermos enviados (missão) deve dar-nos, como comunidade de Jesus Cristo, a visão de sermos sinal profético de liberação, de vida e de esperança, para com todas as pessoas. E esse sinal profético significa denunciar todas as forças, sejam sociais, econômicas, e mesmo eclesiásticas, que promovem morte.

E para ser igreja enviada em missão solidária, para servir a todos e todas na afirmação da vida, devemos entrar em um diálogo criativo e prático com o contexto concreto onde Deus nos colocou para compartilhar sua missão.

À maneira de conclusão

Gostaria, agora, de amarrar e resumir estas reflexões. Em primeiro lugar, se a missão da igreja é conseqüência do projeto histórico do Reino, que afirma a opção pela vida plena e abundante, e a afirmação da dignidade humana, devemos denunciar a manipulação da esperança, quando é substituída pelo desespero ou se confunde com o escapismo da realidade, e proclamar a ação do Espírito de Deus no mundo, como uma única garantia de nossa fé na realização de todo o futuro de vida abundante.

Em segundo lugar, devemos desenvolver um novo esquema para a missão. Isso nos deve levar a revisar e re-atualizar:

ü         nosso discurso bíblico e teológico,

ü         nossa eclesiologia,

ü         as estruturas que poderiam limitar nossa ação missionária,

ü         nossos modelos de educação teológica,

ü         nossa tradição e criação litúrgica,

ü         assim como nossos modelos conceptuais e práticos de ministério.

 

Em terceiro lugar, uma nova visão missionária deverá ter também uma projeção extra-eclesial, macro-ecumênica e amplamente inclusiva. Por um lado, extra-eclesial e macro-ecumênica, porque, se bem que nós, os cristãos, tenhamos uma espiritualidade, certamente existem outras espiritualidades que conformam o caleidoscópio cultural brasileiro e latino-americano, como a espiritualidade das religiões orientais, em geral, e também a espiritualidade das religiões indígenas e das religiões afrobrasileiras. Porque não podemos cair, como muito bem aponta Leonardo Boff, na ilusão cristã ocidental de pretender o monopólio da revelação divina e dos meios de salvação[11]. Certamente, confessar um Deus Trino implica e significa reconhecer que a diversidade também é uma qualidade divina. E, ao mesmo tempo, como apontou Frei Marcelo Barros, reconhecer que Deus se manifesta de formas múltiplas e diferentes no mundo é um sinal de vitalidade espiritual e de abertura às novas revelações do Espírito[12].  Mas, por outro lado, essa nova visão missionária deverá ter também um caráter amplamente inclusivo, em que reconheçamos, respeitemos e aceitemos a voz e a participação de grupos de diversas idades (idosos, jovens, crianças), ideologias, orientações sexuais, capacidades físicas, de mulheres, etc., sem criar relações de dominação, discriminação e exclusão.

 
Em quarto lugar, devemos procurar uma koinonia (unidade/comunidade) holística e integral, com a finalidade de desenvolver projetos de justiça, porque a koinonia não tem sentido sem a diakonia. A base da vida comunitária é a solidariedade. Somente por meio da solidariedade inter-humana, solidariedade que deve transcender as próprias fronteiras da igreja, vamos nos reconhecer uns aos outros como irmãos e irmãs e seremos capazes de “conhecer a Deus” (cf. Os  2,19-20).

E esta diakonia,vista como solidariedade, fará com que nos preocupemos com os seres humanos na sua totalidade, com os seus sofrimentos, com as suas necessidades e também que sejamos capazes de conhecer suas possibilidades e potencialidades. Nossa missão diakonal tem que se arriscar ao encontro com o mundo que nos rodeia, inserindo-nos nele para transformá-lo e mudá-lo, antecipando cada vez mais o Reino de Deus na história. E esta visão missiológica trará, como conseqüência, que reinterpretemos as palavras de Jesus “que todos sejam um” (Jo 17,21) no seu verdadeiro sentido mundo-cêntrico, humano-cêntrico e cosmo-cêntrico.

 

Finalmente, em nosso empenho por ser uma comunidade missionária relevante e pertinente para nosso presente, devemos viver e praticar uma espiritualidade integral, que compreenda todas as dimensões do ser humano. Uma espiritualidade em que o corpo, a sexualidade, a fantasia, a música, a diversão, o trabalho, assim como a luta pela vida, pelos direitos humanos e pela preservação de nosso habitat, não sejam compreendidos como opostos, e diferentes, à oração, adoração, contemplação, mística, e reflexão interior.


E, para fechar, retomo ao texto de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4,16ss), texto que faz parte das chamadas tradições do Jubileu bíblico. Tradições que foram entendidas pelo teólogo alemão Jürgen Moltmann como antecipação da liberação do mundo, presença da eternidade no tempo e antecipação do Reino de Deus na história.[13]

A novidade que sucede, na sinagoga de Nazaré, é a interpretação e recriação que Jesus realiza do texto para seu tempo. É o HOJE SE CUMPRIU o novo e o radical. Para nós trata-se de declarar nosso HOJE como o tempo de graça e liberação para os empobrecidos, os presos, os cegos e os oprimidos, enfim de todas as pessoas necessitadas, marginalizadas, descriminadas e excluídas. É a afirmação da chegada, em Jesus, do Reino messiânico de paz, justiça e fraternidade. Reino que se vincula à denúncia e à rejeição de todos os esquemas opressivos geradores de morte, sejam esses sociais, econômicos ou eclesiásticos.

Por outro lado, em Atos 2, o nascimento da igreja  anuncia-se, retomando a perícope do derramamento do Espírito de Joel 3,1-5 (Jl 2,28-32), em que se proclama a presença transformadora do Espírito sobre jovens, idosos, idosas, escravos e escravas, assim como sobre toda a criação.

E a igreja, que nasce assim, com a marca da liberação, é chamada a participar de atos de libertação. Isso significa que o valor da vida humana constitui uma parte fundamental da fé, da ética cristã e da prática missionária da comunidade de Jesus. Somos libertados para participar, junto com todas as pessoas de boa vontade, nas lutas por um mundo mais justo e melhor.

Nosso HOJE significa reformular nossa visão missiológica por caminhos de solidariedade, transformação e inclusividade e reafirmar a igreja, aqui e agora, como a comunidade que encontra a koinonia na diakonia solidária  Uma igreja profética, que, afirmando e praticando a solidariedade,  seja, assim, fermento de unidade e esperança no presente brasileiro.

 

 

 


Rev. Dr. Pedro Triana
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[1] Veja Pablo Richard, “Los diversos orígenes del cristianismo – Una visión de conjunto (30-70 d.C.)”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU, Quito, 1996, No.22, p.7-20.

[2] Néstor Mínguez, “Contexto sociocultural de Palestina”, em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU, Quito, 1996, No.22, p.30.

[3] Pablo Richard, op. cit., p.9

[4] Pablo Richard, idem. Veja, também, Tomás Kraft. “La iglesia primitiva en África”. em: Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU, Quito, 1998, No.29 y Ediberto López. “Los orígenes del cristianismo y el evangelio de Tomás”. Revista de Interpretación Bíblica Latinoamericana, RECU, Quito, 1996, No.22.

[5] Veja Conferência de Lambeth 1988, Resolução 43.

[6] Norman K. Gottwald. The Tribes of Yahweh - A Sociology of the Religion of Liberated Israel, Orbis Books Maryknoll, 1981, p.398-409, 417-426.

[7] John Booty, “Richard Hooker”, em: The Spirit of Anglicanism, Connecticut, Morehouse-Barlow, 1979, p.42.

[8] Diakonia 2000: Called to be Neighbours, Official Report of the WCC World Consultation, Larcana, 1986.

[9] Sharing Life, Official Report of the WCC World Consultation on Koinonia, El Escorial, Spain, 1987.

[10] Sebastião A. Gameleira Soares, “Diaconia e profecia”, em: Estudos Teológicos, Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 1999, No.3, Ano 39, p.214.

[11] Leonardo Boff, Ciência e Espiritualidade, ADITAL (www.adital.com.br), 10/10/07..

[12] Marcelo Barros, Uma espiritualidade nova para um novo tempo, ADITAL (www.adital.com.br), 05/12/06.

[13] Jürgen Moltmann. Dios en la creación. Ediciones Sígueme, Salamanca, 1987, p.287-307.