Relatório de Lambeth 98 – Missões

 

Introdução

            Deus nos falou e no desafiou. Tentamos aqui compartilhar o que Dele ouvimos e uns aos outros.

            Deparamo-nos com quatro principais desafios e eles constituem o dever de nosso relatório.

            Primeiro, Deus nos chama neste momento. Deus está em ação no mundo de hoje muito além dos limites de nossos orçamentos, estrutura e expectativas. O Evangelho tem o poder de transformar as nossas vidas pessoais e vidas corporativas, familiares, comunidade e nações. Tem o poder de avançar para além de nossa timidez, ineficiência e aspirações.

            Segundo, desde a última Conferência de Lambeth, uma nova e suprema força que molda o mundo em que vivemos a missão é a globalização da economia do mercado. Esta força está trazendo uma rápida mudança ao mundo. Os grupos mais influenciados por essas mudanças, contudo, sem o preparo para lidar com elas são jovens e crianças. Eles vivem num mundo onde nada é certo. Recebem apenas opiniões e não recebem verdades. Entre os efeitos mais visíveis dessa globalização é a fuga de gente para as cidades absorvida pela cultura do mercado.

            Terceiro, a globalização da economia do mercado está ameaçando a identidade e vida das nações e comunidades. Elas respondem freqüentemente com afirmação militante da identidade nacional e religiosa. Em muitos países isso traz pressão crescente sobre os cristãos e as minorias religiosas e perseguições.

            Quarto, a mobilidade crescente em nosso mundo fez com que os povos de diferentes confissões religiosas e culturas vivessem lado a lado. Isso representa aos cristãos o desafio de afirmar tal pluralidade e, ao mesmo tempo, de permanecer fiel ao caráter distinto do Evangelho.

            Carecemos do apoio uns dos outros na missão no mundo de hoje e o desejamos. As estruturas atuais de apoio que surgiram numa era anterior para as tarefas diferentes estão mostrando ser inadequadas. Começamos o processo de prover tal apoio em modos novos e diferentes.

            Ponderamos como responder a esses desafios considerando os seguintes itens.

I.                    Chamada divina para a Missão

II.                 Igreja como parceira de Deus para a missão

III.               O mundo que Deus ama

IV.              Congregação (o povo que se reúne) missionária

V.                 Diocese missionária

VI.              Ser bispo missionário numa Igreja missionária

VII.            Como apoiar uns aos outros em Missão

 

Chamada de Deus para a Missão

            A missão sai de Deus. A missão é o modo de Deus amar e salvar o mundo.

            Deus chama suas criaturas para um futuro maior do que elas estão acostumadas. Desde o começo do testemunho bíblico a voz de Deus é ativa, provoca os seres humanos a se mover, modificar-se e reconhecer quem são eles (as) e a que pode ser, pela ajuda de Deus. O próprio termo Igreja (ekklesia) significa uma comunidade que foi convocada e não é a comunidade que tomou a decisão de vir a ser. É uma palavra, cujas raízes se encontram no mundo secular do Império greco-romano. Dentro do Império romano, a ecclesia significou um grupo de cidadãos livres reunidos para uma deliberação, que buscavam o bem estar de seus vizinhos. Era um conceito político e social. Os primeiros cristãos com a autoridade de Jesus Cristo como sua inspiração, acreditaram ser “cidadãos livres” de uma nova ordem, uma comunidade emergente, o Reino vindouro. A Igreja significa ser convocado (tirado para fora) e reunido. Assim os cristãos se consideram convocados e eleitos por Deus. Isto deve influir em nossa adoração, em nosso evangelismo e em nossas respostas às realidades sociais, políticas e econômicas.

            À medida que entrarmos à profundidade do sentido da chamada de Deus como se encontra registrado para nós, percebemos mais e mais que esse registro nos fala do que Deus é, e não só que nos chama, mas também que Ele nos envia, torna real a nossa vocação na vida real, na realidade histórica das pessoas tocadas por Deus. A chamada de Moisés ou de Isaias é mais do que simples convocação para estar com Deus ou para viver com as leis de Deus. É o envio aos outros. A vida do profeta deve ser uma mensagem.

            No clímax da história bíblica, Deus enviou o seu Filho o próprio ser de Deus – para ale do mundo e de sua história – está envolvido num ato de envio. O Deus Filho, o Deus Palavra, aparece sobre a terra toda a sua existência como missão: tudo que Ele é, tudo que Deus fala e dá, Ele é Deus que se move em nossa direção, a voz de Deus se fez uma vida humana. À medida que Ele atrai os seres humanos em torno de si em confiança e amizade, Ele os equipa sucessivamente para chamar e comunicar por meio dos dons de sua própria realidade vital – por meio do Espírito Santo.

A nossa chamada é de Deus Pai, a fonte de todas as coisas. Deus nos chama das trevas para o Reino de seu Filho e nos envia no poder do Espírito Santo para viver e proclamar as Boas Novas do Reino. A nossa chamada e o nosso envio não dependem de nossos recursos ou carências dos mesmos. Todos são chamados e todos são enviados.

            A Igreja como um só corpo, santa em comunhão, católica em peregrinação e apostólica em proclamação, é chamada a adorar e testemunhar. Para oferecer “sacrifícios espirituais aceitáveis por Deus por meio de Jesus Cristo” (1Pe 2.5), isto é, a nossa adoração, sacrifício de pessoas, (Ro 12.1) sacrifício de louvor, (He 13.15) e de posses, (He 13.16). Para “declarar os feitos maravilhosos daquele que nos chamou das trevas para a maravilhosa luz”,(1Pe 2.9). Testemunho é o povo que contar a estória em palavras e feitos de sua experiência do poder libertador das Boas Novas de Deus em Jesus Cristo. Em nossos relatórios muitos bispos dão seus testemunhos da obra maravilhosa de Deus entre o seu povo.  Adoração e testemunho, ambos no poder do Espírito Santo, são duas funções vitais da Igreja cristã.

            Cremos num Deus que se engaja completamente em missão e cuja vida é movimento para fora, outorgando e compartilhado vida e alegria divinas. Uma das coisas distintas da fé cristã é que cremos num Deus, que assumiu a missão desde a eternidade.

            Assim a missão é jamais nossa invenção ou escolha. Sempre ela tem começado. Fomos pegos no próprio movimento de amor divino por ser chamados para estar com Jesus. Estar com Jesus ou estar em Jesus nunca é uma relação estática ou privativa. É o movimento do coração de Deus para os confins da terra. “Assim como meu Pai me enviou, envio vocês”, diz Jesus. E ser enviado está no centro de quem é Jesus, assim também está no coração do que somos como cristãos.

            Duas coisas seguem. A missão não é opção para os cristãos. É simplesmente parte estar em Cristo. A missão e o evangelismo não são duas coisas, mas uma coisa só:  ser enviado é portar uma vida transformadora – Boas Novas. É estar vivo com a vida de Jesus, que comunica tanto graça quanto verdade. Compartilhar boas novas é sempre o alvo e foco da jornada cristã com Jesus Cristo. Como disse o Arcebispo de Cantuária (George Carey) à Conferência anglicana global sobre o Evangelismo Dinâmico para o além do 2000:

 

A missão que não tem o evangelismo como um foco não é missão cristã e o evangelismo que se preserva alheio às questões de justiça e o bem estar humano não reflete adequadamente a revelação bíblica. Devemos insistir no caráter inconsútil da Missão e evangelismo.

            Em que consiste exatamente a Boa Nova? É a vontade eterna de Deus que devamos compartilhar a alegrei divina. Essa vontade é tão forte e fiel que Deus está sempre livre para perdoar o nosso pecado, sobrepujar a nossa escravidão e criar o novo começo para nós. Esta notícia vem a nós através da vida de Jesus, por meio de sua morte (em que ele carrega a conseqüência de nosso pecado por nós) e por meio da ressurreição, que demonstra que  a vontade divina pode trazer da morte a vida,(2Co 4.7-12; 5.16-21). Cabe a nós responder ao convite que nos vem de Jesus. Nós o ouvimos e o recebemos quando somos tocados pelo Espírito Santo. Por tanto, é nunca apenas informação, mas um movimento para novas possibilidades de viver com Deus, conosco mesmos, uns com os outros e com o resto da criação.

            Uma vez que o Batismo é o começo de nossa jornada com Cristo a missão deve ser a preocupação de todos os batizados. A Grande Comissão de Mateus 28 para a batizar e fazer discípulos não foi dada a uns poucos especialistas, mas a todos que se reuniram na presença do Cristo ressurrecto. Toda a Igreja, , a ecclesia,  a assembléia convocada por Deus, é enviada com e em Cristo, no poder da ressurreição de Cristo. Esta é a razão porque devemos pensar muito energicamente sobre como todo o povo de Deus deve ser equipado para a missão. O povo de Deus é provido, principalmente, pelos dons do Espírito Santo e há uma renovada consciência hoje de sua profundidade e poder na Igreja. Uma implicação digna de nota é que a missão cristã é sempre um serviço mútuo dentro da Igreja bem como o ato de ir para além de seus limites. Não se pode identifica-la simplesmente com o fluxo de agenda e dos recursos dos privilegiados para os desprivilegiados.

            Se ser batizado significa ser atraído para a própria missão de Deus, essa missão continua em todos nós constantemente. Quanto mais permitir a ação divina em e por meio de nossos planos, nossas palavras e nossas ações mais a missão alcançará o seu propósito. A Palavra de Deus não voltará vazia. Assim podemos dizer com Paulo que aquele que nos chama é fiel e quem nos chama nos equipa com o que é necessário e podemos depender da promessa de Jesus quando ele envia os seus para a missão, para que esteja com eles sempre.

            A Escritura lida no contexto de nossas vidas é um lugar onde esperamos encontrar Deus que nos chama. Na comunidade dos chamados para andar com Jesus, a chamada é constantemente renovada pela exposição das Escrituras. As Igrejas que realmente estão em movimento através do mundo são Igrejas que ouvem as Escrituras com gratidão e alegria. Ai a voz de Deus feita real na história do povo de Israel, na vida de Jesus e no testemunho da Igreja primitiva torna-se imediata para nós. Descobrimos de novo que já objetos da missão de Deus antes de sabermos que somos sujeito e agentes. Lembramo-nos de que a missão de Deus estava a caminho em nossa direção antes que o mundo fosse criado. A missão exige fidelidade para com a Bíblia como um desafio vivo e como uma promessa de transformação.

 

Igreja, parceira da Missão de Deus

            Acolhemos a teologia da missão apresentada pela MISSIO (Comissão da Missão da Comunhão Anglicana) em 1996, “Cantai um novo canto” e por ela temos sido estimulados. Temos baseado nessa teologia para compartilhar a nossa compreensão da Igreja como parceira de Deus em missão.

Igreja em transformação e transformadora

            Deus está em ação na história agora mesmo. Como sempre tal ação exige os olhos para discernimento e o ouvido para ouvir. A nossa comunhão é chamada como parte da Igreja universal para ser sinal da presença e graça da atividade de Deus entre as nações. Ser sinal do “reinado de Deus na terra e no céu (Mt 6.10) é preciso que coloquemos, em primeiro lugar, os nossos corações no reinado de Deus, e na sua justiça salvadora, (Mt 6.33). Tal sinal exige não só uma teologia transbordante de graça, mas também aquilo que demonstre uma ética pública (comunidade) de re-distribuição das riquezas e a prática do Jubileu."Diferente de nossa sociedade, os evangelhos percebem o pecado e a dívida como fundamentalmente inter-relacionados”.[1]

            Devemos dar crescente atenção à cultura e missão desenvolvendo “uma compreensão integrada da relação entre a justiça e o Evangelho e demonstrar a consciência da realidade do pecado estrutural bem como o pecado pessoal”.[2] 

            Não podemos nos livrar da visão da justiça social e econômica que os profetas, o Salvador e os apóstolos anunciaram.

            A tarefa da missão tem no seu coração o reconhecimento de que é do Senhor a terra, a tarefa é a transformação da vida não só dos indivíduos como também da sociedade, das nações e da ordem criada, (Jo 10.10).

            A missão efetiva acarreta necessariamente num testemunho claro da presença de Deus em toda a criação e na responsabilidade da raça humana como mordomo da ordem criada. Isso é especialmente importante no presente século com o freqüente abuso dos recursos naturais e de outras criaturas vivas em nosso mundo. Todo o nosso trabalho do evangelismo deve incluir este tema: em Cristo recebemos toda a possibilidade se ter uma boa relação com toda a criação. Em Cristo somos chamados a buscar a justiça para toda a criação.

            Tal transformação não acontece sem custo. Para muitos em nossa Comunhão, seguir o exemplo de Jesus Cristo dar vida por causa dos pecados do mundo. O amor de Deus pelo mundo revelado na autodoação, na morte sacrificial de Cristo continua ser desempenhado hoje, e, pelo benefício do mundo somos convidados a andar pelo caminho de Cristo da Cruz. A Escritura nos proporciona com abundante evidência de que o propósito de Deus é a redenção do mundo por meio de Jesus Cristo. A Escritura, portanto, nos desafia a viver e trabalhar para que reino de Deus justo e compassivo seja a experiência comum de toda a humanidade. Diante do desafio que o Senhor Ressurrecto coloca diante dela, a Igreja deve transformar-se sob o poder do Espírito Santo de modo a tornar-se:

 

Uma Igreja enraizada na comunidade

 

            Os primeiros cristãos marcaram o seu compromisso localizando-se na comunidade bem como sendo comunidade. Foram chamados do mundo, mas não foram removidos do mundo: redentivamente imersos na agonia e na dor que caracterizam o mundo decaído e consciente disso, mas não moldados por esse mundo. Enquanto nesse estado de testemunho redentor ou martyria, “eles eram olhados pelas pessoas como referência”, à medida que estavam aprendendo e adorando juntos onde a graça do Espírito Santo estava visível em sua oração e louvor. Eles praticavam a benevolência, partilha de seus bens com os necessitados, partindo juntos o pão, assumindo suas tarefas diárias com alegria e paciência, empenhando-se para não ser ansiosos a respeito do amanhã. Era a disciplina da cortesia comum e conduta graciosa que os marcaram como o povo que tem alguma coisa que vale abraçar, de modo que “de dia em dia o Senhor lhes aumentava”. O Espírito de Deus, o qual concede os dons ao povo de Deus, para se dedicar a serviço de Deus e uns aos outros, tem chamado a Igreja para tal vida, visto que ela é a agente para alcançar o mundo com a vida e amor de Deus.

            A igreja que almejamos ver é, portanto, uma rede de comunidades de adoração, pequenas e grandes, enraizadas no contexto. Elas vivem a vocação de Deus em amor (Jo 15.12-17), buscam o bem estar do povo de Deus, independente de diferenças raciais e culturais e vivem com o perdão e generosidade do espírito do Jubileu, (Lv 25, Lc 4.18-19).

            Esperamos que as estruturas episcopais e diocesanas tomem a forma de servo focalizadas nas comunidades locais da fé e com amplitude de visão. Elas facilitarão o testemunho de uma comunhão de amplitude mundial sobre a unidade de Deus em sua própria unidade no Espírito, enquanto se celebram sua rica diversidade e catolicidade.

 

Igreja do Jubileu

            Os bens privados, a meritocracia (o domínio dos mais dotados) a tentação do poder centralizado juntamente com a escravidão da dívida estão documentados na Bíblia em ambos os Testamentos. Ao lado da traição do mais vulnerável, o pobre e o excluído, está a tradição profética, que critica a liderança nacional política, e religiosa, que permite tal iniqüidade e apresenta uma visão do sábado ou do jubileu da justiça social e econômica. Tal visão foi percebida como identidade central de Israel como povo escolhido e tornou-se integral da própria proclamação de Jesus do sábado, o “ano favorável do Senhor”, (Lc 4.18-19; cf. Is 61.1-2). É significativo que Lucas registra esse texto de Isaias como aquele pelo qual Jesus define e inaugura em sua missão, em seu primeiro sermão.

            Com essa definição, Jesus expõe por meio de parábolas e milagres, a centralidade do jubileu e procura sua prática como uma realidade contínua do reinado de Deus, libertada do legalismo do qüinquagésimo ano. Devemos nos refletir que as confrontações especiais eram com os que detinham o poder para perdoar as dívidas e se recuaram a faze-lo. Se nós devemos evitar a espiritualização das “Boas Novas aos pobres,” é preciso que façamos reflexão sobre o cancelamento real da dívida e a devolução da propriedade e da pessoa ao seu lugar certo.

            O jubileu foi pratica, embora infrequente, e os profetas, notavelmente, Isaias (3.14-15), Oséias (2.5) e Amós (8.5-6) eram principais entre os críticos, quando a liderança nacional resistiu a proceder o jubileu. Jeremias e Ezequiel deram sinais de alguma prática do jubileu se bem que fosse intermitente. Jeremias critica um dos reis um dos reis pelo abandono do compromisso com o jubileu, (Jr 34.34.14-16). Ezequiel sustenta a visão econômica e redistribuição do jubileu, (Ez 45.7-8; 46.17-18; 47.13-23).

            O Novo Testamento nos apresenta exemplos da redistribuição das riquezas e do retorno das terras não só nas estórias de Jesus, mas também nos discípulos notáveis como Leví (Lc 5.27-31) e Zaqueu (Lc 19.1-10). Ao seguir a Jesus, os pescadores fizeram uma escolha econômica, deixando para trás os meios principais de vida numa casa, família e campos da sociedade de camponeses, (Mc 1.18-20; Lc 5.28; Mc 10.29-30).

            É fácil dispensar  como idealismo heróico a prática da economia do sábado ou do jubileu na Igreja primitiva, (At 2.45; 4.35) ou o apelo de S.Paulo em 2 Coríntios para trabalhar em prol de comunidades em que os que tinham muito não tenham demais, e não tenha faltado a quem tinha pouco, (8.14-15). Todavia o desafio para a nossa Comunhão vem tão resoluto como a questão que os discípulos colocou diante de Jesus, “quem, então, pode ser salvo?” (Mc 10.26). Imaginando um mundo, em que os mais afortunados compartilham de tal modo que vá ao encontro da posição minimalista de S.Paulo, exige a prática de kononia (participação, partilha, comunhão, ter a coisa em comum) numa escala até aqui não imaginada. Somente uma realidade é mais inimaginável: um mundo em que não existem ricos e pobres. Jesus teve tal imaginação. Quando os discípulos expressaram sua incredulidade como nós, também, o fazemos, sua resposta foi direta e simples, pelos recursos humanos é impossível, não o é para Deus, “porque para Deus tudo é possível”,(Mc 10.27).

            Almejamos uma Igreja que viva no espírito do jubileu, “o agora do ano aceitável do Senhor.” Trabalharemos por uma Igreja que veja o Evangelho, que abrace tudo, inclusive a economia. Dedicamo-nos, de novo, para ser uma Igreja que traga a cura à humanidade ferida, falando e agindo em favor da solidariedade e sendo solidária com os vulneráveis e excluídos. Promoveremos o espírito do jubileu trabalhando pelo cancelamento de dívidas impagáveis das ações mais pobres do mundo pelo ano 2000 e pela libertação de todos os prisioneiros de consciência. Faremos a dedicação de nós mesmos para que nos tornemos numa Igreja transformadora por meio do arrependimento da nossa falha em pratica jubileu e procurar um futuro, em que tal prática seja integral para toda vida da Comunhão Anglicana, em sua missão no mundo e para o mundo.

            Além disso, sugerimos que as Igrejas da Comunhão Anglicana sejam decididamente encorajadas a separar uma proporção regular de sua receita para a missão como um testemunho da importância de compartilhar os recursos em favor do reinado de Deus. A evidência da história mostra que o poder para a missão é mais do que o poder econômico, mas que a nossa doação pode ser uma medida do compromisso com a missão de Deus.

 

Uma Igreja revitalizada que vive na simplicidade do amor de Deus

            A nossa fé é trinitária. Cremos em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, um só Deus em três pessoas, o qual, em sua eterna comunhão de seu amor, cria, recria, e nos transforma. Somos uma comunidade dos batizados, chamados á fé e esperança. Devemos brilhar como luzes no mundo para a glória de Deus, preparando o caminho para a ordem de liberdade e amor de Deus a ser revelada entre nós. Qualquer visão do futuro da missão cristã dentro da Comunhão Anglicana precisa sustenta no seu centro a simplicidade do dom do amor de Deus, o qual é concedido para ser compartilhado.

            A nossa visão da missão deve oferecer a esperança profunda de que o propósito principal da humanidade é glorificar Deus e ter alegria eterna da presença de Deus. A missão é amor, a suprema realização do novo mandamento, (Jo 13.34,35).

            Todavia, a nossa estrutura raramente nos proporciona um ambiente onde se possa amar a alegria que transforme as pessoas, as comunidades e as vizinhanças em que vivemos. A nossa oração e visão em favor de uma Igreja revitalizada que, em testemunho e comunhão, seja um sinal verdadeiro do reinado de Deus no contexto da celebração da fidelidade de Deus, no enraizamento na fé bíblica, dinâmica em missão e evangelismo, criativa e jubilosa em adoração, preocupada com o companheirismo, generosa na doação para a missão, dedicada para a transformação social por meio de gente transformada.

            Reconhecemos que, para a revitalização dessa forma, é preciso que a nossa Igreja mude sua maneira de ser, em muitos lugares, mude atitudes, acolha pessoas e cuide delas para o crescimento. Tudo isto implica em transformação.

 

Transformação pessoal

            Que espécie de gente devemos ser a fim de tomar parte em tal comunidade? Temos de encontrar-nos com o Senhor Jesus ressuscitado em arrependimento e fé, voltando continuamente a Ele e abandonando a presente chamada para o amor voltado para nós mesmos. Ao voltarmos para o Cristo encontraremos a nossa verdadeira identidade como filhos e filhas de Deus e a nossa verdadeira vocação como servos e servas de Deus e uns dos outros. Esta é a verdadeira libertação, em Cristo, do pecado e do poder do mal. Esta é a plena  humanidade como membros do seu Corpo habitado pelo Espírito Santo. Quando voltarmos a Cristo e chamarmos outros para voltarem, todos nós seremos transformados de glória em glória e uns aos outros e voltamos ao mundo, para o qual Deus enviou o seu Filho.

 

O mundo que Deus ama

            O mundo que Deus ama é um mundo de diversidade cultural, no qual muitas religiões estão ativas. Isso apresenta vários desafios, aos quais a Igreja deve proclamar o Evangelho. Identificamos quatro deles, em particular, a saber, globalização e urbanização, crianças e jovens, pluralismo religioso e comunicação.

 

Globalização e Urbanização

            A nossa preocupação com a missão e evangelização nos tornou conscientes de que, levando-se em consideração que o mais rápido crescimento de nossa Igreja ocorre na zona rural do mundo em desenvolvimento,  o desafio mais urgente à fé cristã e ao senso de participação encontra-se nas cidades. Por volta do ano 2000 mais de cinqüenta per cento da população do mundo estará vivendo nas cidades. O numero de cidades com população mais de treze milhões está crescendo O desafio real à missão Cristã no século XXI será o de missão urbana.

            A urbanização da população mundial é uma conseqüência da globalização.  A globalização recebe o poder e a estrutura pelo triunfo do capitalismo liberal do século XX com sua conseqüência de um mercado globalizado e com uma revolução paralela na tecnologia da comunicação. O desenvolvimento dos meios cada vez mais rápido e cada vez mais sofisticado de transferência de informação e dos ativos tem contribuído para a consolidação do poder do mercado e tornar todos os aspectos da vida humana em mercadorias para serem vendidas.

            Todavia, não dizemos que a globalização e urbanização são males em si ou que devem ou podem ser resistidas. Reconhecemos que, através da história humana,  é nas cidades que as sociedades e culturas humanas têm expressado suas aspirações mais elevadas e celebrado suas notáveis realizações culturais. Estamos lembrados de que o Livro de Apocalipse vê o destino humano realizado numa Cidade, a Nova Jerusalém.

            Afirmamos  que tanto a urbanização quanto a globalização estão, agora, fora de controle e, mais e mais, estão desapontando os seres humanos e as comunidades. Estão em perigo de destruir a própria idéia da cidade, onde todos teriam seu lugar, onde a maioria poderia encontrar a sua realização, onde as realizações culturais e espirituais de uma sociedade poderiam ser celebradas. A cena de crianças  catando lixos de Buenos Aires ou Mumbai (Índia), enquanto isso os ricos dessas cidades se trancam em guetos fortificados para sua proteção são lembres gráficos do crescente fracasso de nossas cidades. A recente fuga de capital do Sudoeste da Ásia com o conseqüente colapso de suas economias e os efeitos devastadores das nações mais pobres do mundo, que lutam para pagar as dívidas impagáveis são sintomas de globalização incontrolável.

            Uma das características da urbanização é a perda de comunidade. As pessoas se protegem contra os de fora por meio de organização das moradias. Áreas residências são simplesmente dormitórios. A vida é vivida no local de trabalho ou em áreas de recreação. As pessoas se tornaram “deslocadas”, que são essencialmente desarraigadas. Seus lugares de vida são periféricos aos seus lugares de significado.

            Os grupos que sofreram os maiores impactos dessas mudanças e menos equipados para lidar com elas são nossas crianças e jovens. A eles voltamos agora.

 

Crianças e Jovens

            O encontro com jovens é uma experiência de missão trans-cultural dentro de nossas sociedade e Igrejas. Quando lemos os relatórios passados observamos uma nota constante de chamada para entender, reconhecer, incluir e mudar as nossas Igrejas, em resposta para com as preocupações dos jovens. Fomos jovens na década de cinqüenta e sessenta.

            Porém o ritmo da mudança na cultura dos jovens está se tornando cada vez mais rápido. Achamos proveitosa a  noção de que, na cultura, vivemos tanto a cena de fundo (segundo plano, tomamos por certo) quanto a cena do primeiro plano,(o que se requer a escolha atual). Os jovens vivem com pouco da cena de segundo plano e muito com a cena de primeiro plano. Na cena de primeiro plano vemos os mitos do mercado que nos contam que a auto-realização, autogratificação e autodesenvolvimento são supremos objetivos. Em muitas sociedades tradicionais o nome cultural de Deus está sendo esquecido, nas culturas urbanas modernizantes. A Igreja deve dar atenção a essa cena de primeiro plano de fantasia com a realidade eterna do Reino de Deus. Mas a luta consiste em discernir quando o Reino pode afirmar e abraças mudanças nas culturas e expressar os valores evangélicos e quando o Reino poderia mostrar um melhor caminho. Carecemos da ajuda de jovens cristãos para expressar esse discernimento. Tal discernimento seria decisivo para o evangelismo na cultura dos jovens.

            A cultura jovem é uma cultural global em nossos dias. Por causa do uso amplo de comunicação eletrônica os jovens são denominados de “geração conectada”. A cultura jovem é marcada pelos ritmos africanos, símbolos asiáticos e por um senso de solidariedade com o ambiente e reconhecimento da imensidão cósmica. Em muitas partes do mundo, passam, também, por um grande risco da violência, prostituição, drogas, pornografia e poderes demônicos. Há uma nova faceta da juventude. Embora os cristãos na África tenham crescido de sessenta milhões para trezentos e trinta milhões desde o fim da era colonial em 1960, mais de metade da população de alguns países africanos está abaixo de dezesseis anos de idade. Na América Latina, a maioria dos membros das Igrejas está abaixo dos quarenta. Para muitos de nós jovens são as nossas nações e os jovens são as nossas Igrejas.

            Jovens podem ser entusiastas e gostam de cuidar dos outros, mas como gente de todas as idades podem ser, também, apressados e tomam atitude de julgamento. Em algumas culturas, os jovens podem estar isolados da corrente principal de seus pares. Nessas circunstâncias, podem estar lutando para sobrevivência num contexto alheio.

            O conceito da juventude e cultura jovem é uma criação bastante recente. Embora seja necessário dar atenção à cultura jovem, é preciso que faça isso informados com a perspectiva bíblica. Devemos trazer à cultura jovem uma crítica da perspectiva bíblica. A Bíblia fala sobre a chamada dos jovens por parte de Deus e a sabedoria que Deus lhes oferece (Samuel, Maria, Timóteo). A Bíblia fala, também, a respeito do cuidado infinito de Deus para com as crianças, (Dt 24.17; 27.19; Mt 18.6). Isso levaria dirigir a nossa atenção para o ministério aos jovens como pré-requisito indispensável para o ministério para os jovens. Muito dos nossos problemas com os jovens são conseqüências de nossa negligência para com as crianças.

            A preocupação com as crianças é uma marca de autenticação da Igreja. “O reino lhes pertence”. É correto que cada criança tenha a oportunidade de descobrir que tem um Pai celestial cheio de amor. Negar essa possibilidade seria um tipo de abuso. Trabalhar com crianças pode criar aquela feição de criança na comunidade, para a qual Cristo chamou.

            Se esta preocupação for traduzida em ação, será necessário que haja mudança significativa nas atitudes e prioridades em muitas congregações e entre muitos líderes da Igreja. Muito freqüente o trabalho com as crianças tem baixa prioridade e muitos que trabalham na área infantil sentem-se abandonados, Entretanto,a verdade é que, em muitas congregações, a maioria de seus membros chegou à fé ou tomou passos significativos na sua jornada de fé antes de treze anos de idade.

            Os pais cristãos buscam nas Igrejas o auxilio para  a formação de seus filhos e filhas e que não o procurem em vão.



[1] Ched Myers, New Economy of Grace, Sojourners, Julho e agosto 1998

[2] Mary Morre, The Missionary Imperative in Western Culture, Thinking Mission, USPG 1995