LAMBETH 98

 

                Com a presença de 730 bispos (11 mulheres), pela primeira vez incluindo além dos diocesanos, os coadjutores e sufragâneos, reuniu-se na Universidade de Kent, a 13ª Conferência de Lambeth da Comunhão Anglicana, de 18 de julho a 08 de agosto de 1998.

                A programação normal incluía um Culto Eucarístico antes do café da manhã, seguido-se de Oração Matutina e Estudo Bíblico (II Carta aos Coríntios) em pequenos grupos.  Nas duas primeiras semanas os temas foram debatidos e os documentos reelaborados nas seções e sub-seções, ficando as deliberações plenárias para a última semana, e apenas para as resoluções não consensuais.  Algumas conferências ou  painéis também ocorreram para o conjunto de participantes: “A Bíblia, o mundo e a Igreja”, “Tomando decisões morais”, “As relações entre cristãos e muçulmanos e a Comunhão Anglicana” , “A juventude”, “A Dívida Externa” (com o presidente do Banco Mundial).  O culto de abertura se deu na Catedral de Cantuária, com uma solene e festiva Eucaristia (com a presença de Charles, Príncipe de Gales).  O Arcebispo de Cantuária recepcionou a todos com um almoço no Palácio de Lambeth (quando falou o primeiro-ministro Tony Blair), e fomos todos recebidos no Palácio de Buckingham, para um chá, por S.M. Elizabeth II.  Tanto as Eucaristias, pela manhã, quanto as Orações Vespertinas, tiveram a responsabilidade de províncias diferentes, em uma demonstração do comum e da diversidade das expressões litúrgicas anglicanas.

                Reuniões extra-programa aconteceram nas noites livres, de freqüência voluntária, promovidas por diversos organizações e movimentos.

                A Capelania, com um espaço de silêncio, meditação e aconselhamento, ficou a cargo das ordens religiosas anglicanas, tanto masculinas quanto femininas.

                Uma programação paralela para o(a)s cônjuges do(a)s bispo(a)s foi organizada pela Sr.ª Eileen Carey, com conferências, seminários e visitas.

                A tônica da conferência foi estabelecida a partir do Pronunciamento Presidencial proferido pelo Arcebispo de Cantuária, Sua Graça George Carey , no início da Conferência.  O pluralismo anglicano foi vivenciado em um clima fraternal de maturidade e respeito, em que o calor dos debates foi temperado pela festa e pela adoração.

                O volume de trabalho foi imenso, com as várias redações dos relatórios de seções e com o debate e votação das resoluções.

                Os participantes da Conferência de Lambeth se dividiram em quatro grupos temáticos (seções), que, por sua vez, se subdividiam em sub-grupos temáticos (sub-seções), a saber:

Seção I  - Chamados à Plena Humanidade

Sub-seções – 1. Direitos Humanos e Dignidade Humana

                       2. Meio Ambiente

                       3. Sexualidade Humana

                       4. Tecnologia Moderna

                       5. Eutanásia

                       6. Dívida Externa e Justiça Econômica.

A seção relembra a tradição da Conferência em orientar questões de ética social mais agudas em suas épocas, celebra o 50º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos da ONU, e registra os problemas mais graves do nosso tempo: o crescente abismo entre ricos e pobres, a violência contra a mulher e a criança, os efeitos da economia globalizada, os juros, armas e minas terrestres, a discriminação por raça ou  casta,  o fundamentalismo religioso e o nacionalismo exacerbado, os refugiados e a questão dos povos indígenas.  Afirma o compromisso moral dos cristãos com o bem-estar do mundo, devendo ser Igreja exemplar como comunidade modelo e comunidade moral: “A Igreja tem a responsabilidade de contribuir para a promoção de sociedades justas, e é chamada ao testemunho profético onde ocorram violações dos direitos humanos, e onde a corrupção e o nepotismo ameaçam o bem público”.

                A partir do Pacto da Criação, da Criação como Sacramento e da Criação como Sacerdócio afirma a necessidade de uma Eco-teologia com particular ênfase no Sabbath como repouso também da natureza: “Como cristãos necessitamos estar conscientes da nossa responsabilidade pela destruição do ambiente natural e devemos questionar, pessoal e coletivamente o uso dos recursos que sustentam sistemas iníquos”.

                Registra-se o avanço tecnológico sem precedentes, que distancia as possibilidades de povos ao seu uso e benefício, lamenta a tecnologia de guerra, e nos desafia a questionar eticamente o seu uso.  O Deus que nos abençoou com memória, razão e talento, nos convoca a usar os dons da criação no cuidado da criação e das criaturas considerando a vida dada por Deus como intrinsecamente santa e significativa, e que a vida não é a soma total da existência, pois nos realizaremos plenamente na eternidade com Deus por meio de Cristo, bem como o fato cotidiano das opções morais. “Não podemos, sob nenhuma circunstância, endossar a eutanásia como um meio de por fim à dor e ao sofrimento, quando definida como: “O ato pelo qual uma pessoa intencionalmente causa ou ajuda a causar a morte de outra que está seriamente ou terminalmente enferma”.

                Resume-se a história recente do endividamento das nações, o papel do FMI e do Banco Mundial, o seu efeito perverso sobre as nações mais pobres, com alto curto social, sua relação com os governos ditatoriais e corruptos, o que leva a Conferência a apoiar a campanha pelo cancelamento da dívida.

                Reconhece-se a sexualidade humana como um dom amoroso de Deus, como um meio de expressão do mais profundo amor e intimidade do ser humano, e que as Sagradas Escrituras e a tradição são as fontes de orientação ética da igreja também nessa área.  Os membros da seção reconheceram suas divergências quanto ao tema da homossexualidade.

                Da seção I são originárias 15 Resoluções tomadas pela Conferência:

1.1.              A afirmação e a adoção dos princípios da Declaração de Direitos Humanos da ONU

1.2.              A afirmação da tolerância e da Liberdade Religiosa

1.3.              A defesa da justiça para com as mulheres e crianças

1.4.              O repúdio à agressão e à guerra

1.5.              O apoio aos portadores de deficiência

1.6.              A escuta ao clamor do povo do norte e oeste de Uganda

1.7.              A escuta ao clamor do povo do Sudão, Ruanda e Burundi

1.8.              A afirmação da visão bíblica sobre a criação

1.9.              A defesa do meio ambiente

1.10.           A sexualidade humana (comentário em separado)

1.11.           A defesa da proibição das armas nucleares

1.12.           A recomendação para a criação de uma Comissão sobre ética e tecnologia

1.13.           A defesa da ratificação da Convenção de Otawa sobre as minas terrestres

1.14.           A eutanásia (comentário em separado)

1.15.           A dívida externa e a justiça econômica (comentário em separado)

Seção II – Chamados a viver e a proclamar as Boas Novas

                A seção registra como problemas a globalização, a economia de mercado, a agressão à identidade nacional e religiosa, a urbanização, a questão da criança e da juventude, o pluralismo religioso, o desafio da comunicação, a reconciliação e a dívida externa.  Afirma que Deus nos chama para uma Missão, que a Igreja é parceira de Deus na Missão: uma igreja transformadora, enraizada na comunidade, revitalizada, vivendo a simplicidade do amor de Deus, vivendo o espírito do jubileu: “necessitamos encontrar o Cristo ressussitado em arrependimento e fé... quando encontramos a nossa verdadeira identidade de filhos de Deus e nosso verdadeiro chamado de servos de Deus e do próximo”.  Deus ama ao mundo.  A Igreja deve ser uma congregação missionária, uma congregação da adoração, da leitura das Escrituras e da reconciliação.  Há um desafio para as igrejas urbanas e para missionar à criança e à juventude.  A diocese deve ser missionária.  O Bispo e o clero devem ser missionários.  As experiências da “Década do Evangelização” são registradas: “nossa avaliação a essa altura somente pode ser ‘foi o Senhor que fez isto, e é coisa maravilhosa aos nossos olhos’ (Salmo 118:23).  Estamos firmemente convencidos em apontar para uma dinâmica ênfase missionária no coração da nossa vida como comunhão.  Esperamos que o melhor ainda está por vir”.

                Da Seção II são originários 07 resoluções tomadas pela Conferência:

2.1.              A fundamentação teológica da missão (reafirmação do Credo Niceno, o caráter imperativo da missão e do evangelismo a partir da resolução).

2.2.              A missão e as estruturas da Comunhão Anglicana

2.3.              Dioceses Companheiras

2.4.              O cristianismo em sociedades islâmicas

2.5.              A prioridade futura para a missão (que o ímpeto da Década da Evangelização não seja arrefecido).

2.6.              Urbanização (criação de uma Rede Urbana Anglicana)

2.7.              Juventude (ênfase no evangelismo, no apoio e no treinamento de jovens, bem como em expressões litúrgicas.

Seção III – Chamada a ser uma Igreja fiel em um mundo plural.

                O contexto da nossa época globalizada leva a um processo de fragmentação, de homogeneização, e, por outro lado, na insistência na diferença. Os anglicanos são acostumados a ênfases em diferenças.  A comunicação tem criado uma “aldeia global”.  Há migrações de refugiados e surgimento de sub-culturas urbanas, ao lado da mesmice. Estamos substituindo a modernidade pela pós-modernidade.  No Ocidente vem prevalecendo uma ideologia que gera a injustiça e o vazio espiritual.  Há um enfraquecimento das verdades tradicionais.  No Terceiro Mundo registra-se uma crescente confiança no Evangelho, dentro de uma perspectiva holística, e a vitalidade e dinamismo de suas igrejas.

                Somos chamados a viver o espírito do Pentecostes hoje, com uma ênfase tanto na contextualização (enraizamento da cultura) quanto na catolicidade do Evangelho (em  comunhão com a Igreja universal).  Somos chamados a ser uma Igreja fiel em Koinonia, fiel ao ensino dos apóstolos e fiel no partir do pão.

                O anglicanismo vive a  unidade na diversidade (unidos por uma herança comum e uma fé comum). Devemos expressar a nossa fé e as nossas idéias na nossa cultura, sem concordarmos com as distorções existentes na cultura.

                Na Comunhão Anglicana não há autoridade centralizada, nem nenhuma igreja isolada, ou grupo de igrejas pode determinar a forma de fé dos outros, mas deve-se buscar a interdependência de toda Comunhão.

                É apoiado o ministério ordenado local (auxiliar, sênior), o diaconato como ordem distinta permanente (serviço, ponte com o mundo, lugar litúrgico próprio).  O presbiterado deve se coadunar com o sacerdócio universal de todos os crentes.  O episcopado vem passando por transformações, de um modelo monárquico para um modelo participativo.  Afirma-se o princípio da subsidiaridade recomendado pelo Relatório de Virgínia (o que pode ser feito por uma esfera menor ou local não o deve ser pela esfera geral ou maior).

                A autoridade deve ser “pessoal, colegial e comunal”.

                Registra-se as diferenças entre as culturas e as gerações, inclusive em temas como a família, o casamento e as relações sexuais, e que os cristãos em diferentes partes do mundo tem, com freqüência, compreensões diferentes sobre esses temas.  O mesmo se diga das relações entre Igreja e Estado.  A Igreja deve elaborar uma palavra pastoral e profética sobre a ordem econômica globalizada e sobre a ética do dinheiro e dos bens materiais, bem como orientar sobre as relações com outros grupos religiosos.

                Da seção III são originários 18 Resoluções tomadas pela Conferência:

3.1.              A Bíblia (reafirmada como autoridade primária, de acordo com o seu testemunho e os nossos formulários históricos).

3.2.              A unidade da Comunhão Anglicana.

3.3.              A Subsidiaridade

3.4.              A Comissão Eames (apoia e recomenda o estudo)

3.5.              A autoridade das Santas Escrituras (comunicação autoritativa de Deus, e, de acordo com o Quadrilátero de Lambeth (1888), contém “todas as coisas necessárias para a salvação”, e são para nós  “a regra e o padrão último” de fé e prática.

3.6.              Instrumentos da Comunhão Anglicana (ACC deve se chamar Conselho da Comunhão Anglicana e deve ter igual representação de cada província (um presbítero, um diácono, um leigo).

3.7.              A Conferência de Lambeth (estuda o tamanho, a localização e o desenho ideal).

3.8.              O Relatório de Virgínia (recebe e apoia recomendações).

3.9.              Grupos Inter-regionais (apoia criação)

3.10.           Casamento e vida familiar (endossa relatório da Rede Familiar Anglicano Internacional e encoraja preparação de conselheiros).

3.11.           Liberdade religiosa.

3.12.           Monitoramento da Relações Inter-Fés.

3.13.           Inculturação da Adoração (encoraja).

3.14.           Coordenador para liturgia (apoia a figura)

3.15.           Consultas Internacionais Anglicanas sobre liturgia.

3.16.           União de Mães (expressa gratidão e apoio)

3.17.           Ofícios Diários (recomenda disciplina devocional dos bispos)

3.18.           Discipulado (recomenda programas)

Seção IV – Chamados a ser um

A natureza da unidade da Igreja e a Vocação Ecumênica da Comunhão Anglicana.  As Igrejas Unidas e as Igrejas em Comunhão, a experiência local regional e nacional.  O Conselho Mundial de Igrejas, a experiência anglicana de conviver com a diferença, as implicações da unidade visível (Koinonia e amizade). O papel do Quadrilátero Chicago - Lambeth para a dinâmica da unidade.  As novas Igrejas e os grupos cristãos independentes: o que podemos aprender com eles (crescimento, estilo mais livre de adoração, maior peso na proclamação e no ensino das Escrituras, maior clareza quanto ao ensino moral, treinamento para o evangelismo).  O futuro das relações ecumênicas com essas igrejas e grupos.

Convergência em Fé e Ordem: Diálogo com outras Igrejas (Assíria, Batista, Luterana, Malabar, Metodista, Moraviana,  Orientais, Ortodoxas, Reformadas, Católica-Romana).  A  Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas.

Consistência e Coerência: resposta e recepção, alvos, consistência, anomalias nos diferentes diálogos, implicações de relações específicas, consultas, acordos, o método ecumênico.  Resposta e recepção.

“O Movimento Ecumênico é acerca da conversão a Cristo, e a um ao outro em Cristo.  Quanto mais perto estamos de Cristo, mais perto estamos um do outro”.

Da Seção IV são originárias 23 Resoluções tomadas pela Conferência:

4.1.              Compromisso com a unidade plena e visível

4.2.              O Quadrilátero Chicago-Lambeth (como base para a busca da unidade)

4.3.              Por uma Comissão Inter-Anglicana para as relações ecumênicas.

4.4.              Ecumenismo local

4.5.              Eclesiologia e Ética

4.6.              As Igrejas em Comunhão

4.7.              O Conselho Mundial de Igrejas

4.8.              Por uma data comum para a páscoa

4.9.              As Igrejas “continuantes” (grupos anglicanos cismáticos – buscar reconciliação)

4.10.           Implicações dos Acordos Ecumênicos

4.11.           Unidade dentro das províncias da Comunhão Anglicana

4.12.           A Igreja Assíria do Leste (encorajar conversações regionais)

4.13.           As Igrejas Batistas (buscar aproximação, cumprindo a resolução de Lambeth 88)

4.14.           As Igrejas Luteranas (a Declaração de Porvoo (Europa), a Declaração de Waterloo (Canadá) e o processo da Concordata (EUA)

4.15.           As Igrejas Metodistas (apreciação pelo documento conjunto “Partilhando na Comunhão Apostólica”)

4.16.           A Igreja Moraviana (saúda o Acordo de Fetter Lane, com as Igrejas da Grã Bretanha e Irlanda)

4.17.           As Igrejas Orientais Ortodoxas (encoraja discussões bilaterais)

4.18.           As Igrejas Ortodoxas (reafirma a Declaração de Dublin e a Convergência em Cristologia)

4.19.           As Igrejas Reformadas (apoio ao grupo de trabalho conjunto com a WARC)

4.20.           A Igreja Católica Romana (consolidar os documentos anteriores e saúda a encíclica Ut Unum Sint (1995)

4.21.           A Comissão e Fé e Ordem do CMI (apoio a divulgação do documento “Compartilhando a Fé Una”

4.22.           As igrejas pentecostais (explorar a possibilidade de conversações).

4.23.           Novas igrejas e grupos eclesiais independentes (encoraja relacionamento)

V – Resoluções Regionais: Algumas resoluções foram votados pela conferência oriundas dos grupos regionais:

5.1.              Pelo cancelamento da dívida externa e o alívio da pobreza.

5.2.              Um chamado à solidariedade pela justiça, paz e reconciliação no mundo.

5.3.              Por transformação e Renovação (na vida das igrejas)

5.4.              Sobre a Irlanda do Norte (encorajar o processo de paz)

5.5.              Estrutura Provincial Anglicana para a Europa Continental (buscar alternativas)

5.6.              Formação de um Fórum Ibérico

5.7.              Reabertura do Secretariado de Evangelismo

5.8.              Por um logotipo para o milênio

5.9.              Por um cessa-fogo global (31.12.1999 – 02.01.2000)

5.10.           Sobre responsabilidade episcopal e limites diocesanos.

5.11.           Sobre temas de justiça social para a Oceania

5.12.           Um apelo para a paz aos governos do Oriente Médio e Sul da Ásia

5.13.           Um apelo às Igrejas e governos do Sul da Ásia.

5.14.           Por paz e Reconciliação

5.15.           Criação de um escritório Religiões/ Fés no Mundo.

5.16.           Necessidades Econômicas da Ásia.

5.17.           Sobre o Paquistão (falta de liberdade religiosa)

5.18.           Sobre a Terra Santa

5.19.           Sobre o Irã

5.20.           Sobre o Iraque e a Líbia

5.21.           Sobre a juventude

5.22.           Dificuldades Econômicas na Ásia

5.23.           Pela Unificação da Coréia .

5.24.           A celebração do milênio.

5.25.           Espadas em Arados.

5.26.           Pela cidadania britânica para os habitantes de Santa Helena

5.27.           Sobre o Apartheid

5.28.           Sobre a Namíbia

5.29.           Sobre a Angola

5.30.           Relações entre Cristãos e Muçulmanos

Outras resoluções:

6.1.    Sobre as relações com pessoas de outras fés.

7.1.              O chamado de Lambeth à Oração (pelo uso do Ciclo Anglicano de Oração).


                O Bispo da Diocese Anglicana do Recife integrou a Seção III, participando na primeira semana da sub-seção sobre “Casamento, Família e Sexualidade”, e na segunda semana presidiu a sub-seção “Liderança dos Bispos”.  Foi de sua autoria a Resolução V. 7 Formação de um Fórum Ibérico, que estatui: “com o propósito de facilitar uma maior participação da região Ibero-Afro-Latino resolve requisitar do Comitê Permanente do ACC e dos primazes considerar: a) a imediata formação de um Fórum Consultivo Ibero-Afro-Latino que se reunirá periodicamente; b) a nomeação pelo Arcebispo de Cantuária, ouvidos os primazes da região, de um assessor permanente, adjunto ao Secretário Geral do ACC, para o mundo Ibero-Afro-Latino”.

 

AS EMENDAS MAIS POLÊMICAS:

 

EUTANÁSIA: A questão é ética e, ao mesmo tempo técnica (médica).  Portanto, ao condenar a eutanásia como incompatível com a fé cristã, e que não deveria ser abrigada na legislação civil, faz-se uma ressalva (d) “distinguir entre eutanásia e suspensão, desaceleração, declínio ou término de tratamentos e intervenções médicas excessivos, todos estas podem ser compatibilizadas com a fé cristã em permitir a uma pessoa morrer com dignidade.  Quando uma pessoa está em estado vegetativo permanente, sustentá-la com nutrição e hidratação artificial pode ser visto como constituindo intervenção médica”.

 

DÍVIDA EXTERNA: Esse tema de ética social internacional uniu bispos das mais diversas tradições teológicas, particularmente os do terceiro mundo, enquanto percebia-se uma certa relutância ou desconforto de alguns bispos do primeiro mundo.  O documento descreve os males sociais decorrentes do pagamento da dívida, aplaude algumas iniciativas do G-8 (Grupo de nações desenvolvidas),, mas os considera insuficientes, condena a corrupção de governos devedores, apoia o cancelamento da dívida para os países mais pobres e pede às dioceses que apoiem fundos para o desenvolvimento (pelo menos 0.7% do orçamento diocesano).  Embora levantado por alguns poucos bispos, tanto a seção quanto a conferência evitaram relacionar claramente esse fenômeno como uma mazela decorrente do sistema capitalista.

 

SEXUALIDADE HUMANA: O tema ocupou atenção demasiada, prejudicando o aprofundamento de outros assuntos, particularmente uma avaliação da “Década da Evangelização”.  A crise teve início com a quase-aprovação, no ano passado, pela convenção geral da Igreja Episcopal dos Estados Unidos da ordenação de homossexuais praticantes (é provável que 25% dos seus bispos já o façam) e do rito de bênção matrimonial para pessoas do mesmo sexo (é provável que 10% dos seus bispos já o façam). Veio a reação no Encontro Sul-Sul, com a “Declaração de Kuala Lumpur” e com a “Declaração de Dallas”.  A cúpula da igreja americana recuou e desistiu de incluir o tema em suas sugestões para Lambeth, sendo a questão defendida por alguns bispos individualmente, como John S. Spong, de Newark, que abriu uma polêmica pela internet, com suas “12 teses” colando a questão com as clássicas posições ultra-liberais ( “desdivinização de Jesus”).

A primeira decisão da Seção I foi suspender uma reunião com depoimentos de homossexuais praticantes.  Uma reunião voluntária foi convocada por um grupo de bispos (inclusive eu) para ouvir depoimentos de homossexuais convertidos, celibatários e casados.  Foram colocados diante do plenário cinco propostas: uma bispa norte-americana pedia maior estudo, ficando cada um na sua; o grupo latino-americano (conciso) apenas reafirmava o valor da família e do ensino tradicional da Igreja; dois grupos africanos apresentaram propostas mais duras.  A Seção encaminhou uma proposta de compromisso, que foi aprovada como tese-guia.  As emendas supressivas, aditivas e modificadoras de redação foram incluídas, sendo o item mais polêmico a afirmativa que rejeita a prática homossexual como “incompatível com as Escrituras”.  Bispos do primeiro mundo (especialmente dos EUA) advertiram que a aprovação poderia dividir a Igreja.  O resultado final, contudo, foi um quase consenso: 526 bispos aprovaram o texto, 40 se abstiveram e apenas 70 foram contra. 

O texto do relatório encaminhado pela seção foi suscinto e omitiu alguns assuntos tratados nas Lambeth anteriores no grupo de comportamento aquém do ideal, mas não intrinsecamente pecaminosos.  Os conservadores moderados como David Guitari, Arcebispo do Quênia tiveram que fazer concessões aos anglo-católicos e aos fundamentalistas, compreendendo o momento de um pêndulo dialético.

Alcançou-se o pretendido: dar uma “face” anglicana sobre o tema, caracterizando a posição de norte-americanos e aliados como algo “dissidente”, marginal ou exótico, ilegítimo.  Alguns norte-americanos moderados mudaram seu voto entre sua Convenção Geral e Lambeth, para a posição conservadora.  Destaques do texto aprovado:

1.       Nas letras (a) e (b) fica claro o status da Bíblia como fonte de ensino moral;

2.       Aponta para o casamento heterossexual monogâmico e estável como o ideal bíblico;

3.       Crê na abstinência para os não vocacionados ao casamento;

4.       Desaprova a ordenação de homossexuais praticantes e a bênção de uniões do mesmo sexo;

5.       Distingue a “orientação sexual” da “prática homossexual”.  A primeira é reconhecida como existente na Igreja, essas pessoas devem ser  amadas e reconhecidos como membros plenos do corpo de Cristo, devem receber cuidados pastorais e direção para o “poder transformador de Deus para que vivam suas vidas em direção a relacionamentos ordenados (de acordo com a ordem). A Segunda é condenada como “incompatível com as Escrituras” mas, essas pessoas devem ser ouvidas e cuidadas pastoralmente.

6.       Condena o temor irracional aos homossexuais (homofobia).

Não havendo uma só palavra sobre divórcio, recasamento e poligamia ficam valendo as decisões de Lambeth anteriores.  O termo “casamento”  usado na resolução  tem um sentido teológico, não se entrando na questão dos ritos sociais, civis ou religiosos, o que legitimaria as uniões de fato.  Restringindo a recomendação de abstinência para os que não são vocacionados para o casamento, há um silêncio quanto aos vocacionados solteiros e às relações pré-cerimoniais. (Que a Rede Anglicana sobre Família queria que fosse estudada).

O texto aprovado, enfim, deve ser entendido em seu contexto: um posicionamento claro quanto ao homossexualismo, a partir das Escrituras, em virtude de ensinos e práticas contrários por parte de uma ínfima minoria, que vinha recebendo ampla cobertura de mídia, e que falsamente parecia representar a opinião anglicana.

 

UMA AVALIAÇÃO

         A Conferência de Lambeth encerra uma imensa carga simbólica.  A beleza da liturgia de abertura na histórica Catedral, em que o solene conviveu com o novo.  Os clássicos hinos da tradição reformada, os novos hinos do recente movimento carismático, o cântico coral e da orquestra erudita com o balé popular.  O Arcebispo de Cantuária sentado no trono de Santo Agostinho, cercado pelos primazes de todo o mundo, na presença do corpo diplomático e de representantes de outras confissões.  A historicidade e a universalidade do anglicanismo teatralizados.  A sua respeitabilidade e a sua importância.  O príncipe Charles e a nação (pela transmissão direta pela televisão) ouvindo o sermão proferido por um bispo africano; novos tempos, o anglicanismo não é estático.

        Imensa troca de informações e de experiências, convivência, camaradagem, novas amizades, seriedade no estudo dos temas propostos, maturidade no debate e votação, inclusive dos assuntos mais polêmicos.  Respeito à diferença, limites à inclusividade.

        A liderança de George Carey é percebida, a clareza e a profundidade dos seus pronunciamentos dão um norte para a Comunhão Anglicana para a próxima década.  Pessoa simples, despojada, humilde.  Um evangélico que passou por uma experiência carismática, valoriza a liturgia e se compromete com as questões sociais, não poderia ser melhor síntese para o momento, dessa igreja que, nas palavras do livro de liturgia da Conferência, “afirma um saudável equilíbrio entre substância católica e princípio protestante”.

        O que podemos anotar no seu decorrer ?

1.        Há uma rápida mudança no mapa geo-político do anglicanismo: os antigos países brancos hegemônicos desde muito ( Inglaterra, Gales, Escócia, Irlanda, EUA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia), com exceção de alguns bolsões, vive a dura realidade da estagnação ou do declínio em sociedades secularizadas; a maioria dos anglicanos vive agora no hemisfério sul, particularmente na África, com milhares de convertidos e crescente número de dioceses.  Lambeth 98 testemunhou o ocaso do poder branco e anglo-saxão;

2.        A mudança no mapa geo-político acarreta profunda alteração na hegemonia teológica: a coalizão liberal branca que era a voz do anglicanismo por mais de meio século é rapidamente deslegitimada por uma maioria credal e confessionalmente conservadora.   A crise da modernidade é a crise da razão iluminista.  Fé, espiritualidade, transcendência, revelação, estão de volta pela mística dos países periféricos, cansados de serem considerados “ignorantes”  pela arrogância racionalista (imperialista e neo-colonialista) dos seus irmãos do norte.

3.        A mudança no relacionamento entre correntes históricas antes conflitantes, mas com compromisso confessional comum: anglo-católicos, carismáticos, evangélicos e fundamentalistas selam uma nova coalizão hegemônica (“Essentials”, no Canadá, “Ekklesia”  nos EUA, movimento Sul-Sul, movimento Sul-Norte, etc.).  Essa coalizão conseguiu derrotar os liberais em quase todas as votações nas Seções e no Plenário.    Hemisfério Sul – Confessionalidade conservadora e coalizão credal: eis a nova cara do anglicanismo.

4.        Compromisso missionário integral.  O anglicanismo continua voltado para o mundo, com um sólido consenso em matéria sócio-econômica-política, com a defesa dos valores do Reino de Deus, de Justiça e Paz, como parte de uma agenda missionária centrada na pregação do Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo, e no convite à conversão.  As províncias e dioceses que levaram mais a sério a “Década do Evangelização” foram as que mais cresceram, enquanto implantaram, simultaneamente,   projetos sociais e mantiveram 

         uma   postura profética.

5.      Busca de equilíbrio entre Tradição e Inculturação.  Nos mais de 30 cultos celebrados na Conferência notávamos a constância de elementos históricos comuns contidos nas edições do Livro de Oração Comum, e, ao mesmo tempo, uma ampla, diversificada e criativa pluralidade de cores, sons e gestos, com hinos e corinhos que tornaram os cultos agradáveis e com sabores das diferentes culturas.

6.      Busca de equilíbrio entre Cultos Eucarísticos (com a celebração da Ceia do Senhor) e Cultos não-eucarísticos (Orações Matutinas e Vespertinas).  Tínhamos ambas as formas todos os dias.  No encontro sobre missões antes de Lambeth (em Hoddesdon) os tínhamos em dias alternados (as Eucaristias com pão sírio...).  O mesmo constatamos em  programação de várias paróquias inglesas.  Assim evita-se o sacramentalismo ou a vulgarização do sacramento.

7.      Clareza quanto aos padrões morais.  Províncias e dioceses com tradição confessional, pressionadas por muçulmanos, cercados por pentecostais descobrem a importância do “sim, sim; não, não”, do ensino tradicional da Igreja em questões de conduta, com as ressalvas para possíveis equiparações entre normas reveladas e tradições culturais, e a necessidade de se prestar, criticamente, atenção, à contribuição científica.  Essa clareza tem tido um impacto positivo nas relações ecumênicas (com romanos, ortodoxos e evangélicos).

8.      Intercâmbio e interinfluência entre as tradições.  No momento atual as tradições internas do anglicanismo, conquanto fiéis aos seus princípios, vivenciam menor rigidez e imobilismo e maior abertura para incorporar elementos considerados positivos nas outras tradições, o que leva, de fato, à criação de sub-tradições ou de novas tradições: o lugar do Espírito Santo e o louvor mais livre dos carismáticos está sendo incorporado pelos outros; a liturgia está sendo revalorizada pelos evangélicos (pela primeira vez um evangélico, o bispo Colin Buchanan, presidiu a Comissão de Liturgia de uma Lambeth), enquanto que a ênfase na exposição bíblica e no evangelismo (apanágio dos evangelicais) vai ganhando prioridade em vastos segmentos.

9.      Reaproximação com o protestantismo. Um jornal londrino apontava (com erudição) para o caráter protestante da Inglaterra e do Anglicanismo, mesmo quando o termo tenha caído em desuso.  Plena comunhão com várias Igrejas luteranas, busca de aproximação com os batistas, abertura para diálogo e aprendizagem com o mundo pentecostal, e, muito em especial, o lugar central das Escrituras, são sinais dessa tendência.  Além do que as províncias que mais crescem hoje são majoritariamente evangélicas e/ou carismáticas.

  Em conclusão: Estivemos, além de Lambeth, no encontro sobre “Parceria na Missão”, promovida pela Igreja da Inglaterra, no Encontro Para Líderes (“Curando a Igreja para Curar as Nações”), promovido pelos carismáticos (SOMA), no encontro da Comissão Executiva e no Retiro promovido pelos evangélicos (EFAC), no Encontro de Bispos Ibérico e Latinoamericanos (Partnership House) e na Diocese de Rippon.

                  Procuramos fazer o máximo de contatos possíveis e entabular futuros convênios.  Aprofundamos nossa visão do anglicanismo, nos reabastecemos intelectual e espiritualmente, e estamos convencidos que a Diocese Anglicana do Recife está no caminho certo, sintonizada com a liderança do Arcebispo de Cantuária e com o novo momento da comunhão anglicana,

                Não nos esqueceremos do Culto de Encerramento, concluído com o entusiasmado cântico de “Marchando sob a luz de Deus” (Cântico carismático sul-africano), com o Arcebispo de Cantuária se balançando e puxando o ritmar das palmas...

                Ad Maiorem Dei Glória!

                 Recife, 20 de Agosto de 1998.

 

                W Dom Robinson Cavalcanti

 



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