PASTORAL DA CONFIRMAÇÃO

 

            A confirmação faz parte dos “ritos sacramentais, que evoluíram na Igreja sob a orientação do Espírito Santo”, diz o Resumo da Fé Cristã e continua, “embora seja meio de graça” esse e “outros ritos não são necessários para a salvação da mesma maneira como são o Batismo e a Eucaristia”. Por isso o rito de Confirmação tem uma trajetória em interação com as necessidades e evolução das estruturas da Igreja através dos tempos. 

 

            A Confirmação é um rito pelo qual uma pessoa inserida plenamente no Corpo de Cristo pela água e pelo Espírito Santo ainda criança expressa publicamente o “compromisso adulto com Cristo” e, para tanto, deseja receber o “poder do Espírito Santo pela imposição das mãos de um bispo”, (Resumo da Fé). “É isso que se espera”, como diz rubrica referente ao Rito da Confirmação, e o que se espera é a expressão do “compromisso adulto” qualificada como “reafirmação pública e consciente de fé e das promessas e dos votos batismais”, “quando disposta e devidamente preparada,” e, então, “receba a imposição das mãos do Bispo”,(p.174).

 

Assim há dois focos na Confirmação. (1) declaração pública do compromisso adulto ou amadurecido da fé e votos batismais. (2) A renovação ou fortalecimento do Espírito Santo. “Fortalece, ó Senhor,” ... com o teu Espírito Santo, (primeira fórmula). É a renovação do Espírito Santo, isto é, crescimento no Espírito Santo, na segunda fórmula, “protege, ó Senhor, teu filho (a) com tua graça celestial, a fim de que continue a ser teu (tua) para sempre, e de dia em dia cresça em teu Santo Espírito cada vez mais até que chegue ao teu eterno reino”.

 

            Nas orações do Bispo, a renovação se refere à aliança batismal. Por exemplo, a coleta que pode substituir a do dia diz o seguinte, “permite, ó Deus Onipotente, que nós, redimidos da vida antiga por nosso Batismo na morte e na ressurreição de Jesus Cristo sejamos renovado no teu Espírito Santo, para que vivamos na justiça e verdadeira santidade” (LOC, p.176). Na oração antes da imposição das mãos, lê-se o seguinte, “... nós te agradecemos porque, pela morte e ressurreição de teu Filho Jesus Cristo, venceste a morte e o pecado e nos trouxeste para a vida contigo e porque, pela unção do Espírito Santo, nos vinculaste ao teu serviço. Renova nestes teus servos a aliança que fizeste com eles pelo Batismo” (p.180). Destacando um ou mais pontos nessas orações, a Confirmação é a renovação batismal e não é sua completação[1] e a unção do Espírito Santo à que se refere a oração é consignação com água ou com óleo no Batismo, isto é, o que já foi feito, “vinculaste” ao teu serviço. Assim é a renovação do serviço para o qual fomos vinculados pelo Espírito Santo.

 

            O rito da Confirmação como os demais ritos passaram por adaptação a uma nova circunstância. Essa adaptação ocorreu quando o Ministro principal do Batismo passou do Bispo para o Presbítero com o crescimento rápido da Igreja no período de Constantino fazendo com que o bispo não fosse disponível sempre. Juntamente com isso está a questão da unção pós-batismal. Em uma vertente indicada em Hipólito existe a segunda unção no Batismo, a qual é ministrada pelo bispo após o mergulho na água com uso do nome da Trindade ou após aspersão da mesma. No entanto, conforme E.C. Whitaker, o Rito de Hipólito não era universal e há outra vertente indicada nas Constituições Apostólicas que incorpora Didaque, onde há uma só unção antes da água, sendo opcional o óleo, e, podendo ser água para a consignação.[2] O nosso Rito Batismal sinaliza essa consignação com estas palavras, “N”, no Batismo estás selado (a) pelo Espírito Santo com o sinal da Cruz, (+). És de Cristo para sempre. Amém. No Livro de Oração Comum anterior, herdeiro dos primeiros Livros, a Confirmação é a ratificação dos votos batismais com a oração do fortalecimento do Espírito Santo. Em relação a esse Livro, o novo Livro de Oração Comum avança um pouco mais no sentido de retirar a insinuação de que os batizados não teriam recebido o Espírito Santo, o que foi debate na década de cinqüenta do século passado, eliminando aquela leitura dos Atos dos Apóstolos capítulo de que os cristãos da Samaria não haviam recebido o Espírito Santo até que os apóstolos impusessem as mãos e orassem. E, para reforçar o sentido da Renovação e não da completação do Batismo colocou o “selo do Espírito Santo” na consignação no Batismo. Diga-se de passagem que o rito batismal da Igreja Luterana no Estados Unidos e da Presbiteriana do mesmo país incluiu a consignação praticamente idêntica à nossa. [3]

 

Dito isto, é preciso registrar a suficiência e essencialidade do Batismo da água em nome da Trindade, sem a consignação ou qualquer ato pós-batismal. Isso fez parte das “posições acordadas” da Comissão Permanente de Liturgia e da Câmara dos Bispos da Igreja nos Estados Unidos. Essa posição está expressa no que se refere ao batismo condicional quando houver dúvida razoável de que uma pessoa não tenha sido batizada “com água, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (que são partes essenciais do Batismo)” (LOC americano p.312). Essa é, também, a posição da Comissão de Doutrina Igreja do País de Gales, “o Batismo é o Batismo da água e do Espírito Santo, quer enriquecido com as cerimônias pós-batismais ou não. Nada mais é exigido para a plena validade da Iniciação Cristã”.[4]

 

Confirmação – Ofício Pastoral

            Tudo isto significa uma coisa como tem concluído a Consulta Anglicana Internacional de Liturgia do Conselho Consultivo Anglicano reunida em Toronto 1991 publicada sobre o título de “Crescer em Novidade de Vida: Iniciação Cristo no Anglicanismo de hoje”: a confirmação representa um ofício pastoral e não parte de um processo iniciatório. Se desejar manter o título de “confirmação, então, deve haver entendimento claro do seu status como ofício pastoral”.[5] Com efeito, no Livro (americano de 79,) que adotamos como padrão, a Confirmação está localizada nos Ofícios Pastorais.

 

Pastoral de renovação e fortalecimento para o serviço

            Como já vimos nas orações acima mencionadas a Confirmação é, também, a renovação do serviço, para a qual fomos designados pelo Batismo. Na trajetória do Rito da Confirmação, houve momento em que se desejou conectar os confirmandos com o Ministério de todo o povo de Deus, em termos de ordenação leiga. Um dos promotores dessa idéia foi Massey Shepherd, um dos liturgistas de renome. Porém, após vinte e cinco anos, em 1964, ele chegou à conclusão de que “o laicato é a ordem sacra fundamental na Igreja e todos nós somos feitos leigos em nosso Batismo. Devemos nos livrar de toda linguagem popular que sugere que a Confirmação é assim denominada de ordenação do laicato. O Batismo é a ordenação leiga”.[6]

 

Dito isso, na esteira da renovação do serviço já recebido, isto é, a equação pertencer a Cristo é ser seu servo possibilita conceber a Confirmação como a renovação e comissionamento pelo bispo ao serviço já designado por Deus no Batismo. Isso dirige a atenção para o foco do ordenamento da Igreja para a Missão colocando a questão da maturidade da fé não no ciclo vital de puberdade, nem no rito de passagem, mas na experiência e no entendimento da fé cristã e no serviço. Isso significa, de um lado, que a questão da idade fica fora de cogitação. Pois se desejar marcar uma fase da vida cristã, nesse caso a idade ou fases da vida não coincidiriam necessariamente com a experiência e maturidade em termos de vida e de responsabilidade cristãs. E, de outro lado, é importante que se faça uma conexão amadurecida entre a fé e serviço na comunhão da Igreja. Para tanto é importante que a comunidade da Igreja se torne o ambiente e instrumento para que todos cresçam em novidade de vida. Também, é preciso que haja uma boa socialização dos bens espirituais na Igreja. Também, para isso é preciso que haja um relacionamento orgânico ou como de um corpo vivo ou teia de relacionamento entre os bispos, clérigos e leigos como acima mencionado, uma boa circulação dos bens espirituais, que nos tornem mais e mais sinais fortes do reinado de Deus.

 

            Nessa trajetória do Rito o lugar do bispo como ministro do Batismo foi restaurado. Ele é quem preside o Batismo quando presente. Isto não significa que ele faça todos os atos, mas dizer as palavras iniciais, pregar, e fazer a consignação e a recepção. A celebração do Novo Ministério ou Instituição de Reitor, Pároco ou Ministro sinaliza o lugar do bispo no Batismo com a entrega da água ao instituído(a) dizendo, “N” recebe esta água e me ajuda (ajuda o bispo) batizar em obediência ao Nosso Senhor”.  Com isso se tem a visão clara de que o episcopado é pastoral, e o lugar do Bispo como pastor principal da diocese se enaltece e, diante desse Ministério, os candidatos fazem a renovação amadurecida e adulta da fé em Cristo e do compromisso com o Senhor e recebem a imposição das mãos com oração pelo fortalecimento ou renovação para o serviço.

 

 Isso sugere que se tenha a visão das paróquias, dioceses e província como uma comunhão, comunidade e rede pastoral, fundada no Batismo e alimentada pela mesa da Palavra e do Sacramento com uma via ou mais de vai e vem de comunicação. Para tanto é imprescindível a liderança coordenada dos bispos, clérigos e dos leigos, tendo cada qual sua função específica.

 

            Por fim, é oportuno considerar a rubrica “o bispo imporá as mãos em cada pessoa” para Confirmação e Recepção igualmente e não como em nosso caso “o Bispo tomando a mão direita”. Há dois pontos a considerar. Um se refere ao sentido teológico da imposição das mãos sobre a pessoa, cuja confirmação anterior na sua Igreja de origem é reconhecida por esta Igreja. O que se segue é a ponderação de Leonel L. Mitchell. A imposição nesse caso sinaliza que o Bispo como representante do episcopado universal e desta Igreja particular recebe a pessoa ao seu cuidado pastoral, sinal de jurisdição pastoral, à comunhão desta Igreja, não que ela deixou a sua fé batismal e a confirmação da fé batismal já feita, mas que deixou o cuidado pastoral da Igreja a que, até então pertencia. Estender a mão seria um gesto apropriado para dar saudar os recém batizados ou confirmados.[7] Outro ponto se refere ao levantamento feito, em 1986, entre os bispos da Igreja Episcopal no Estados Unidos. Cinqüenta e oito por cento receberam as pessoas já confirmadas na Igreja Católica Romana, e cinqüenta e seis por cento procederam da mesma maneira para com os que vieram. Em ambos os casos,os bispos alegaram que, na Igreja Católica Romana, nem sempre é o bispo que ministra a Confirmação. Nas Igrejas Ortodoxas é certo que os presbíteros fazem a Confirmação. Também, vinte e sete por cento receberam os luteranos com a fórmula de recepção e dezoito por cento, os presbiterianos e outros. O percentual permaneceu no mesmo patamar na pesquisa de 1992. Alegação disso está numa cláusula do Cânon I.7 onde se lê: qualquer pessoa que recebeu a imposição das mãos de um bispo desta Igreja na Confirmação ou na Recepção deve ser considerada batizada e confirmada. Estes dois pontos mereceriam considerações para uma futura revisão, pelo menos, da rubrica.

 

+Sumio Takatsu

 

             

 



[1] MITCHELL, L. Praying Shapes Believing, p. 119

[2] Sacramental Initiation Complete in Baptism, Grove Books nº1

[3] Growing Newness of life, p.p. 152-53

[4] É o levantamento que David Holeton fez e consta da Consulta abaixo mencionada, p.163

[5] p. 233

[6] Liturgy and Education, p. 106; The Eucharist and Liturgical Renewal, pp.87-114.;ver, também, em S.Sykes, Unashamed Anglicanism, “Ninguém pode avançar para além do Batismo” (No one ever gets “beyond” baptism). “As pessoas ordenadas não se tornam supermembros de Cristo" p.183, fazendo a distinção entre a identidade comum pelo Batismo e função diferenciada pela ordenação.

 

[7] Praying Shapes Believing, p.124



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