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Dia internacional da mulher


Dia 8 de março, dia internacional da mulher. Neste último dia 8, desembarquei em Guarulhos, vinda de Nova Iorque. O dia quente foi um choque em contraste com o frio de Nova Iorque. Mas não foi somente isso que me causou um choque. Muita gente, conhecida e desconhecida, me cumprimentou pelo dia da Mulher. Vi muitos anúncios de presentes para este dia especial. Acho mesmo que todas nós merecemos agrados. Mas foi quase que um sonho: flores, perfumes, chocolates para mulheres doces, sensíveis e delicadas. Tudo muito bom, e a gente quase se esquece de que, aqui em nosso país, uma mulher é espancada a cada 15 minutos. Muitas mulheres ainda preferem sair de casa a denunciar, em parte porque a ineficiência da lei que leva à impunidade privilegia o agressor e alimenta o crime. Em 7 de agosto passado, o Presidente Lula sancionou a lei n? 11.340, chamada de Lei Maria da Penha em homenagem à mulher que foi agredida pelo marido por seis anos, e seu caso virou símbolo de luta contra a violência doméstica no país. Esta lei cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Porém, somente leis não são suficientes para criar uma sociedade em que homens e mulheres possam usufruir dos mesmos direitos.

Isso me faz voltar ao assunto da minha ida a Nova Iorque. Eu estive lá por 14 dias como membro de uma delegação do Conselho Consultivo Anglicano para a 51ª Comissão sobre o Status da Mulher na ONU (UNCSW). Anualmente esta Comissão se reúne e nela os Estados-membros reportam os avanços no campo dos direitos da mulher em seus países e a Comissão prepara recomendações ao Conselho Econômico e Social sobre a promoção dos direitos da mulher nas áreas política, econômica, civil, social e educacional, e as apresenta. Lá, além de assistir às plenárias na ONU, participei de alguns eventos paralelos dentre a grande oferta de workshops e seminários oferecidos por organizações não governamentais com foco na mulher. Este ano, o tema na ONU foi “Eliminação de toda forma de discriminação e violência contra a menina”, e em vários eventos pudemos ouvir a experiência de meninas e de mães.

As estatísticas nos contam que, no mundo, 120 milhões de meninas sofrem mutilação genital a cada ano; dos 130 milhões de crianças que estão em idade escolar e que não estão nas escolas, 60% são meninas; 1,2 milhões de meninas são vítimas do tráfico a cada ano; 15 milhões de meninas entre 15 e 19 anos dão à luz a cada ano; das 500.000 mortes anuais relacionadas com parto, ¼ são de mães adolescentes; meninas entre 15 e 24 anos compõem 76% dos jovens que vivem com HIV; meninas refugiadas ou expulsas de sua terra enfrentam de forma particular problemas de violência sexual, casamento forçado, gravidez forçada, falta de acesso à educação, aumento de risco de contaminação HIV/AIDS e exploração econômica.

As estatísticas nos mostram uma realidade assustadora, mas pode não nos tocar. Podemos ficar horrorizados, mas pensamos que tudo se passa em lugares distantes, longe do alcance das nossas possibilidades de intervenção. Será? Quando as estatísticas têm rostos, quando se ouve a história da boca de quem sofreu na pele, sejam elas do Congo ou da Austrália, elas se tornam pessoas bem próximas de nós. Não podemos ficar mais alheias ao que acontece. Com certeza, não precisamos ir longe: podemos ouvir histórias de violência no Nordeste, no interior do Rio Grande do Sul, ou aqui mesmo, em São Paulo, no nosso bairro ou até mesmo na nossa rua.

Especialmente este ano, uma delegação Anglicana de meninas entre 13 e 18 anos participou da 51ª UNCSW e elas redigiram uma declaração onde fazem sugestões para a Igreja responder às questões apresentadas. Se quisermos ajudar alguém, a primeira coisa de que precisamos é escutar essa pessoa. Se falamos de eliminar toda forma de discriminação e violência contra as meninas, devemos começar escutando nossas meninas, que dizem:

Nós acreditamos que a Igreja tem o poder de ampliar a consciência de qualquer comunidade sobre a situação da mulher (i) provendo a rede de meninas e tutoreando-as, (ii) advogando e promovendo a Resolução 13/3(*), (iii) educando meninas bem como meninos no direito à igualdade de gênero e (iv) continuando o trabalho com mulheres e crianças necessitadas. Assim como nós fomos tocadas, nós desejamos que a Igreja continue a tocar as vidas dos desafortunados no mundo. Nós oramos que, com o amor pastoral de Deus e suas mãos curadoras, pessoas em todos os lugares tenham suas vidas preenchidas de força, paz e alegria e tenham poder e coragem para enfrentar quaisquer desafios que possam encontrar na luta por igualdade, paz e justiça.

Que todos e todas assumamos o cuidado com as mulheres e meninas no mundo todo, como membros comprometidos da Família Anglicana.

(*) do Conselho Consultivo Anglicano de junho de 2005.
Christina T. Winischoffer
psicóloga e membro da Paróquia de São João, SP


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